← Back
Novel organoruthenium complexes containing β-Diketonates: Synthesis, characterization, DNA/HSA interactions, and the impact of biocompatible ionic liquids on biological activities.
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos
Boletim electrônico para fomentar
o acesso e uso adecuado de medicamentos
http://www.saludyfarmacos.org/boletin-farmacos/
Volume 3, número 4, novembro 2025
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos é um boletim eletrônico da organização
Salud y Fármacos que é publicado em português, em parceria com a Cátedra
UNESCO de Bioética e Saúde Coletiva da UFSC, quatro vezes por ano: no
último dia de cada um dos meses de: fevereiro, maio, agosto, novembro.
Editores
Fernando Hellmann, Brasil
Núria Homedes Beguer, EUA
Assessores de Ensaios Clínicos
Juan Erviti, Espanha
Gianni Tognoni, Itália
Emma Verástegui, México
Claude Verges, Panamá
Assessor de Publicidade e Promoção
Adriane Fugh-Berman
Correspondentes
Rafaela Sierra, América Central
StevenOrozco Arcila, Colômbia
Raquel Abrantes, Brasil
Renato Ferreira da Silva, Portugal
Equipe de Tradutores
Roberto Galeano
Fernando Hellmann
Webmaster
People Walking
Editores Associados
Albert Figueras, Espanha
Alejandro Goyret, Uruguai
Anahí Dresser, México
Benito Marchand, Equador
Bruno Schlemper Junior, Brasil
Corina Bontempo Duca de Freitas, Brasil
Albin Chaves, Costa Rica
Duilio Fuentes, Peru
Eduardo Hernández, México
Federico Tobar, Panamá
Francisco Debesa García, Cuba
Francisco Rossi, Colômbia
Gabriela Minaya, Peru
Hernán Collado, Costa Rica
José Humberto Duque, Colômbia
Luis Justo, Argentina
Óscar Lanza, Bolívia
René Leyva, México
Sergio Gonorazky, Argentina
Xavier Seuba, Espanha
Boletim Fármacos solicita comunicações, notícias e artigos de pesquisa sobre qualquer tema relacionado
ao acesso e uso de medicamentos; incluindo farmacovigilância; política de medicamentos; ensaios
clínicos; ética em pesquisa; dispensação e farmácia; comportamento da indústria; boas práticas e práticas
questionáveis no uso e promoção de medicamentos. Também publica notícias sobre congressos e
workshops que serão ou já foram realizados sobre o uso adequado de medicamentos. Boletim Fármacos
inclui uma seção que apresenta resumos de artigos publicados sobre estes tópicos e uma seção
bibliográfica de livros.
Os materiais enviados para publicação em um dos números em português devem ser recebidos trinta dias
antes da publicação. As submissões devem ser enviadas de preferência por e-mail, de preferência em
formato Word ou RTF, para Fernando Hellmann (fernando.hellmann@ufsc.br). Para resenhas de livros
envie uma cópia para Fernando Hellmann, Rua Heitor Luz, 97 Ap 1004. CEP 88015-500 Florianópolis,
SC, Brasil. ISNN 2996-7309 DOI: 10.5281/zenodo.17388135
Índice
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Novidades sobre a Covid
Vieses de saúde subjacentes em receptores de vacina contra o SARS-CoV-2 previamente infectados: um
estudo de coorte
U Riedmann, A Chalupka, L Richter, D Werber, M Sprenger, P Willeit et al.
1
Questões éticas e o papel dos comitês de ética durante as pesquisas sobre a COVID-19 na era pandêmica:
foco em um comitê de ética italiano
L Tattoli, B Abenante, P Cavallo Perin, M Maddalena, F Lupariello.
1
Testando uma vacina experimental durante uma emergência de saúde pública: lições de um caso peruano
C Lanata, T Ochoa, E Bancalari, N Baylor, K Edwards, R Faden, S Madhi, H Nohyneck, Ch Weijer.
2
Ferramentas Úteis
Transparency CORE (Núcleo de Transparência): Kit de Ferramentas para Relato de Custos de Ensaios
Clínicos
Médicos sin Frontera, Technical Brief, abril de 2025
3
Uma ferramenta da Organização Mundial da Saúde para avaliar sistemas de supervisão ética em
pesquisa
CH Coleman, A Khadem, JC Reeder, HB Sillo, R Gaspar, A Reis.
4
Código Prepared: Um código de conduta internacional para a pesquisa durante pandemias
Consorcio Internacional, Proyecto Prepared, 5 de junio de 2025
4
Globalização dos Ensaios Clíncios
Entrevista sobre os ensaios clínicos na América Latina: Riscos e dilemas éticos da “inovação científica”
Salud y Fármacos
5
Novo estudo mostra que a China se tornou uma potência global em pesquisa clínica
T Bruckner
9
Ensaios Clínicos e Ética
Brasil: Lei que regulamenta pesquisas científicas com seres humanos é questionada no STF
Cezar Camil
10
Vulnerabilidade na ética em pesquisa: uma revisão sistemática de diretrizes e documentos de políticas
A Grigis, G Beretta, P Borry, V Sanchini.
11
EUA: A ordem de suspensão de trabalhos do governo Trump provavelmente afetou 32 ensaios clínicos
financiados pela USAID
Public Citizen, 10 de junio de 2025
12
Abuso de prisioneiros afrodescendentes em estudos sobre malária
Salud y Fármacos
12
EUA: Institutos Nacionais de Saúde cancelam estudos sobre a vacina contra a AIDS
Salud y Fármacos
13
As tribulações da Moderna no Reino Unido
Salud y Fármacos
14
Ensaios Clínicos Questionados
Editorial: A integridade dos ensaios clínicos randomizados: declarações de consenso de Hong Kong ao
Cairo
KS Khan, A Bueno-Cavanillas, J Zamora.
14
Uma avaliação do portfólio de ensaios clínicos de selinexor: estudo transversal A Elfar, A Tran, J Case, C
Wayant, G Hughes, R McIntire, B Gardner, C Ladd, A Peña, J Tuia, et al.
16
Amianto no talco, testes em prisioneiros: um relato sobre os perigosos experimentos da Johnson &
Johnson
Gardiner Harris
17
O exercício é ótimo, mas não é um remédio contra o câncer
J Mandrola
18
Ensaios para ampliar as indicações de tratamentos, sem contribuir para o avanço do conhecimento
J Mandrola
20
Dúvidas sobre o ticagrelor: imprecisões surgem em estudos-chave do medicamento bilionário da
AstraZeneca
P Doshi
22
Comitês de Ética em Pesquisa
Orientação prática para compreender as nuances da distribuição de benefícios e o que isso significa para
os comitês de ética em pesquisa em saúde sul-africanos: Parte 1.
L Prinsen
23
Alemanha. O comitê especializado de ética começa a funcionar
Agencia Reguladora Alemana (BfArM), Comunicado de prensa, 30 de junio de 2025
24
Políticas, Regulação, Registro e Divulgação de Resultados
CONSORT 2025: explicação e detalhamento: diretriz atualizada para a publicação de ensaios clínicos
randomizados
S Hopewell, AW Chan, GS Collins, et al.
24
Declaração SPIRIT 2025: Diretriz atualizada para protocolos de ensaios clínicos randomizados
AW Chan, I Boutron, S Hopewell, D Moher, et al.
25
Relato de resultados resumidos em registros de ensaios clínicos: diretriz atualizada da OMS
An-Wen Chan et al.
26
Nova diretriz sobre a inclusão de pessoas grávidas e em período de amamentação em ensaios clínicos
EMA, 4 de junio de 2025
26
A EMA atualiza a diretriz para a publicação de ensaios clínicos com medicamentos de uso humano
Salud y Fármacos
27
ICH E20 – Desenhos adaptativos para ensaios clínicos – Diretriz científica
EMA, 30 de junio de 2025
27
A maioria dos patrocinadores cumpre os requisitos pós-comercialização
Salud y Fármacos
28
FDA suspende novos ensaios clínicos que enviavam células de norte-americanos a laboratórios
estrangeiros em países hostis para engenharia genética
Declaración de la FDA, 18 de junio de 2025
29
Recrutamento, Consentimento Informado e Perspectivas dos Pacientes
As relações na pesquisa: perspectivas dos participantes sobre o consentimento para biobancos
R Thompson, K Lyle, G Samuel, et al.
29
Lacuna entre a pesquisa e o direito dos pacientes à informação completa e oportuna
Salud y Fármacos
30
Riscos e benefícios de envolver jovens que vivem com HIV na pesquisa: perspectivas de jovens quenianos,
cuidadores e especialistas no tema.
E Gillette, W Nyandiko, A Chory, et al.
30
Revisão do que dizem as diretrizes éticas de pesquisa sobre o pagamento a voluntários saudáveis
N Hasler, T Henning, M Suleman.
31
Genética revolucionaria, riesgos emergentes: avances y dilemas en la era de las terapias génicas
Salud y fármacos
31
Mortes e eventos adversos graves em alguns participantes de ensaios clínicos
Salud y Fármacos
32
Gestão dos Ensaios Clínicos, Metodologia, Custos e Conflitos de Interesse
Princípios da Common Sense Oncology para o desenho, a análise e a divulgação dos resultados de ensaios
clínicos randomizados de fase 3
B Gyawali et al.
33
Análise de custos do ensaio clínico TB-PRACTECAL que avaliou novos regimes de tratamento da
tuberculose
D Gotham, M Martin, MJ Barber, E Kazounis, C Batts, R Scourse, et al.
35
O problema com os ensaios clínicos pragmáticos
J. Mandrola
36
Diferenças entre as populações de ensaios clínicos e as populações das bulas aprovadas de novos
medicamentos nos Estados Unidos e na Europa (2012–2023): um estudo transversal
KN Vokinger, M Serra-Burriel, CEG Glaus, L Welti, JS Ross, AS Kesselheim
37
Estratégias para analisar os resultados de ensaios clínicos randomizados globais
Salud y Fármacos
38
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Novidades sobre a Covid
Vieses de saúde subjacentes em receptores de vacina contra o SARS-CoV-2 previamente infectados: um estudo de coorte
(Underlying health biases in previously infected SARS-CoV-2 vaccination recipients: A cohort study).
U Riedmann, A Chalupka, L Richter, D Werber, M Sprenger, P Willeit, M Rijksen, J Lodron, TB Høeg, JP Ioannidis, S Pilz
J Infect. 2025 Jun;90(6):106497. doi: 10.1016/j.jinf.2025.106497
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40315999/
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: vacinação contra a COVID; pessoas saudáveis; mortalidade
relacionada à COVID; vieses em estudos observacionais; viés de
vacinação
vacinados com base em idade, sexo e residência em instituição
de longa permanência.
Resultados: Entre 4.324.485 indivíduos elegíveis, as diferenças
no risco de mortalidade por causas não relacionadas à COVID-19
entre vacinados e não vacinados foram mais pronunciadas nos
períodos iniciais e diminuíram posteriormente. As análises
pareadas para as duas primeiras semanas após a vacinação
mostraram HRs inferiores a 0,5 para vacinados em comparação
com não vacinados, independentemente do número de doses.
Achados semelhantes foram observados para mortes por causas
não relacionadas à COVID-19, por todas as causas e por câncer.
No geral, as mortes por COVID-19 foram significativamente
menores entre os vacinados (VE de 26% a 53%).
Objetivos: Estudos observacionais podem superestimar ou
subestimar a efetividade das vacinas contra o SARS-CoV-2
(VE), dependendo de indivíduos mais saudáveis (efeito do
vacinado saudável – healthy vaccine effect, HVE) ou mais
doentes serem vacinados pReferêncialmente. Para avaliar essa
questão, comparamos a mortalidade por causas não relacionadas
à COVID-19 entre indivíduos vacinados e não vacinados.
Métodos: Trata-se de um estudo observacional retrospectivo de
abrangência nacional, envolvendo toda a população adulta da
Áustria com infecção prévia documentada por SARS-CoV-2,
acompanhada de 2021 a 2023. Foram utilizadas análises de
regressão de Cox para calcular as razões de risco (HRs) de
acordo com o número de doses de vacina recebidas. Também
foram realizadas análises pareadas, nas quais, a cada dia,
indivíduos recém-vacinados foram pareados com indivíduos não
Conclusões: O efeito do vacinado saudável (HVE) para as
vacinas contra o SARS-CoV-2 foi forte nas primeiras semanas
após a vacinação e diminuiu ao longo do tempo. Esse efeito deve
ser considerado ao estimar a efetividade vacinal.
Questões éticas e o papel dos comitês de ética durante as pesquisas sobre a COVID-19 na era pandêmica: foco em um comitê
de ética italiano (Ethical issues and the role of the ethics committees during covid-19 research in pandemic era: a focus on an Italian
ethics committee)
L Tattoli, B Abenante, P Cavallo Perin, M Maddalena, F Lupariello.
Frontiers in Public Health, 2025; 13
https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2025.1537863 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: segurança dos participantes em ensaios, direitos dos
participantes, qualidade dos estudos clínicos, situações de
emergência, comitês de ética em pesquisa, ética da pesquisa durante
pandemias
aqueles não relacionados à doença. Foram aplicadas análises
estatísticas para verificar se havia diferenças significativas na
distribuição das variáveis entre os dois grupos de estudos. As
características dos 1.667 protocolos analisados — incluindo
desenho do estudo, financiamento e inclusão de menores —
foram examinadas. Diferenças estatísticas foram identificadas em
três variáveis: tipo de estudo, apoio finanCEPro e distribuição
dos protocolos revisados segundo a especialidade médica dos
proponentes.
Os Comitês Independentes de Ética em Pesquisa (CEPs) são
responsáveis por proteger os direitos e a segurança dos
participantes envolvidos em estudos de pesquisa. Também
promovem os valores da ética em pesquisa e garantem a
qualidade dos estudos clínicos. Em situações de emergência,
espera-se um aumento significativo nas atividades de pesquisa,
mas é fundamental manter tanto a qualidade dos estudos quanto o
respeito aos direitos dos participantes.
Os resultados ressaltam a necessidade de atenção cuidadosa aos
princípios éticos durante emergências, especialmente diante do
grande volume de projetos analisados pelo comitê. Diversos
desafios foram enfrentados, como a demanda por aprovações
rápidas de estudos propostos, a necessidade de reconhecer o
valor social das pesquisas sobre COVID-19 garantindo ao
mesmo tempo planejamento adequado e validade científica, a
revisão de estudos não relacionados à COVID-19 e a obrigação
de proteger a dignidade e os direitos dos participantes de
pesquisa. É essencial assegurar que os padrões de revisão ética
não sejam comprometidos.
No início da pandemia de SARS-CoV-2, a Organização Mundial
da Saúde recomendou uma abordagem “acelerada” para as
aprovações dos CEPs, com o objetivo de agilizar e otimizar os
procedimentos de revisão, evitando atrasos em pesquisas
consideradas cruciais para enfrentar a emergência global.
Os autores avaliaram a atividade do Comitê Interempresarial de
Ética (IEC) de Turim, Itália, de janeiro de 2020 a dezembro de
2022, comparando protocolos relacionados à COVID-19 com
1
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Testando uma vacina experimental durante uma emergência de saúde pública: lições de um caso peruano
(Testing an experimental vaccine during a public health emergency: Lessons from a Peruvian case)
C Lanata, T Ochoa, E Bancalari, N Baylor, K Edwards, R Faden, S Madhi, H Nohyneck, Ch Weijer.
Vaccine, 2025;56: 2025, 127176, ISSN 0264-410X, https://doi.org/10.1016/j.vaccine.2025.127176
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0264410X25004736 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: violação de princípios éticos em pesquisa clínica, processos de
regulação de ensaios, ensaios clínicos com vacina experimental no
Peru, vacinas contra a COVID
participação do Comitê Independente de Monitoramento de
Dados (Data Safety Monitoring Board).
Conclusões
A emergência sanitária da COVID-19 criou um ambiente em que
os princípios éticos e regulatórios vigentes foram contornados
sob pressão política. Os órgãos e agências reguladoras devem
alertar os países sobre os riscos de conduzir ensaios clínicos
durante uma emergência de saúde pública e garantir que os
procedimentos éticos e regulatórios apropriados sejam seguidos.
Destaques
• Teste de uma vacina experimental contra o SARS-CoV-2,
como resposta à COVID-19 no Peru, envolveu a vacinação de
pessoas que não participavam do ensaio clínico.
• A Academia Nacional de Medicina do Peru criou uma
comissão para identificar o que não foi feito corretamente e
recomendar medidas para evitar que um caso semelhante ocorra
no futuro.
• Seis princípios éticos foram violados e cinco procedimentos
regulatórios não foram devidamente cumpridos.
• Testar uma vacina experimental durante uma emergência
sanitária, sob forte pressão política, cria um ambiente em que os
procedimentos regulatórios existentes e os princípios éticos
podem ser contornados.
Resposta da Universidade Cayetano Heredia
O Dr. Carlos Cáceres apresenta elementos centrais sobre os
aspectos éticos do estudo da vacina Sinopharm e a resposta
institucional da universidade em uma carta à revista Vaccine,
disponível neste
link: https://drive.google.com/file/d/1CKIT9AQUOsOca7xnCOf
666qHlO64Pi3_/view, que reproduzimos a seguir.
Resumo
Introdução
O governo peruano buscou uma vacina como resposta à COVID19. Foi aprovado um ensaio clínico para avaliar uma vacina
inativada contra o SARS-CoV-2. Um programa de notícias
nacional revelou que o presidente do Peru havia recebido a
vacina fora do ensaio clínico, gerando um protesto em todo o
país. A Academia Nacional de Medicina do Peru criou então uma
comissão para identificar os procedimentos inadequados e
oferecer orientações sobre como evitar que um caso semelhante
ocorra novamente.
Em abril de 2025, a revista Vaccine publicou o artigo “Testing
an experimental vaccine during a public health emergency:
Lessons from a Peruvian case”, de Lanata e colaboradores,
baseado em um relatório preparado pelos mesmos autores a
pedido da Academia Nacional de Medicina em 2023. Esse artigo
apresentou uma lista dos principais problemas éticos observados
durante a implementação dos ensaios clínicos das
vacinas Sinopharm no Peru.
Posteriormente, em junho de 2025, a mesma revista publicou
uma carta ao editor assinada pelo Dr. Carlos Cáceres Palacios,
vice-reitor de pesquisa da Universidad Peruana Cayetano
Heredia (UPCH). A carta inicia afirmando que a
universidade assumiu integralmente suas responsabilidades em
relação ao estudo e que não busca se justificar. Em seguida, o
autor propõe oferecer informações adicionais de contexto que
permitam compreender melhor a complexidade ética da situação,
acrescentar dados complementares e descrever as ações adotadas
pela universidade em resposta aos acontecimentos de 2021.
Métodos
Os membros da comissão revisaram todos os documentos e
fontes de informação disponíveis publicamente e elaboraram um
relatório final.
Resultados
Foram identificadas seis violações de princípios éticos: 1) 3.200
doses de vacina foram usadas para vacinar pessoas fora do ensaio
clínico; 2) indivíduos influentes foram vacinados fora do ensaio
clínico; 3) a condução do estudo foi monitorada por uma
organização contratada (CRO) com conflito de interesses; 4) foi
realizado um estudo adicional com a vacina sem protocolo
aprovado; 5 ) o ensaio clínico controlado por placebo continuou
mesmo após a disponibilidade de uma vacina aprovada; 6) os
resultados do ensaio clínico não foram divulgados.
O Dr. Cáceres destaca que o estudo Sinopharm ocorreu em
condições excepcionais de pandemia, em uma sociedade que não
funcionava de modo normal, com regras pouco claras e grande
confusão. O estudo foi articulado entre os governos do Peru e da
China, com forte participação dos ministérios da Saúde e das
Relações Exteriores do Peru, além da Embaixada da China.
Foram selecionados pesquisadores da UPCH e da UNMSM, mas
o estudo não poderia começar sem um patrocinador, conforme
exigido pela regulação de ensaios clínicos, já que a empresa
chinesa não possuía registro ou representante local. Solicitou-se
então à UPCH que atuasse como patrocinadora; a
universidade não dispunha de uma estrutura regulatória
completa, mas aCEPtou devido à urgência sanitária. Além disso,
o Instituto Nacional de Saúde (INS) havia criado o Comitê
Nacional Transitório de Ética em Pesquisa (CNTEI) como o
único responsável pela avaliação ética de estudos sobre COVID-
Foram também identificadas cinco falhas em procedimentos
regulatórios: 1) ausência de supervisão do ensaio clínico por uma
agência de monitoramento de alta qualidade externa ao Peru; 2)
uma universidade atuou como patrocinadora de uma vacina
produzida por uma empresa estrangeira; 3) revisões e aprovações
aceleradas; 4) falta de supervisão adequada pelos órgãos
reguladores locais e pela CRO do estudo; 5) ausência de
2
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
19, o que impediu o Comitê Institucional de Ética da UPCH de
atuar, eliminando um ator fundamental no monitoramento
ético do estudo.
contrato com a empresa chinesa, apresentou o relatório final ao
INS, confiando que este o publicaria, conforme determina a
legislação — o que de fato ocorreu em 2024.
O Dr. Cáceres também explica que a vacina de Beijing — uma
das variantes estudadas — havia demonstrado eficácia em dois
estudos prévios, mas foi tratada de forma ambígua: como produto
experimental e, ao mesmo tempo, como vacina candidata. O
governo chinês ofereceu um lote adicional de 3.200 doses para
“proteger a equipe de pesquisa”, incluindo vacinas destinadas à
embaixada.
O vice-reitor enfatiza que a informação apresentada não pretende
justificar os acontecimentos de 2020 e 2021, e detalha duas
frentes de medidas adotadas: primeiro, as ações corretivas
relacionadas ao estudo, como reestruturação da equipe de
pesquisa, contratação de auditoria internacional, reforço do
Comitê de Monitoramento de Dados (DSMB) e substituição da
CRO. Em segundo lugar, as mudanças estruturais no ViceReitorado de Pesquisa (VRI), com a criação da Direção
Universitária de Assuntos Regulatórios da Pesquisa (DUARI),
que passou a contar com unidades especializadas em avaliação
ética, integridade científica, biossegurança, ensaios clínicos e
controle de qualidade, formando o marco regulatório mais
robusto do país no âmbito universitário.
Funcionários públicos do Ministério da Saúde (MINSA) e
do Ministério das Relações Exteriores se inscreveram para
recebê-las. A confusão de regras naquele momento, agravada
pela gravidade da pandemia e pela intervenção irregular de
autoridades do mais alto nível do Estado, levou o CNTEI e
o INS a aprovarem sua inclusão no protocolo de forma expedita.
Apesar das irregularidades administrativas e do uso arbitrário das
vacinas adicionais, o Dr. Cáceres afirma que os procedimentos
com os participantes permaneceram íntegros. Corrigindo um
ponto considerado impreciso no artigo, ele explica que, assim
que o MINSA autorizou a vacinação geral, decisões cruciais —
como o levantamento do sigilo duplo (cego) para permitir a
vacinação de participantes do grupo placebo ou do braço que
recebeu a vacina Wuhan — foram amplamente discutidas
com autoridades públicas, a Defensoria do Povo e representantes
dos voluntários. Em maio de 2021, foi concedida autorização não
apenas para quebrar o cego, mas também para importar novas
doses da vacina Beijing, possibilitando a vacinação dos
participantes.
Segundo o Dr. Cáceres, “a experiência crítica de 2021
representou uma oportunidade para aprender, refletir e fortalecer
profundamente nossas capacidades institucionais”.
O caso também foi recentemente debatido durante a Jornada de
Ética em Pesquisa em Ensaios Clínicos, organizada
pela DUARI/VRI, como parte de um processo de reflexão aberta
sobre as lições aprendidas e os padrões éticos que devem orientar
a pesquisa em contextos complexos.
A publicação do Dr. Cáceres reafirma o compromisso da
Universidad Peruana Cayetano Heredia com uma ciência
responsável, rigorosa e guiada pelos mais altos princípios éticos.
A carta completa do Dr. Cáceres pode ser lida neste
link: https://drive.google.com/file/d/1CKIT9AQUOsOca7xnCOf
666qHlO64Pi3_/view
O Dr. Cáceres informa ainda que o estudo foi concluído após os
ajustes necessários no protocolo e que, embora a
universidade não pudesse publicar os resultados devido ao
Ferramentas Úteis
Transparency CORE (Núcleo de Transparência): Kit de Ferramentas para Relato de Custos de Ensaios Clínicos
(Transparency CORE: Clinical Trial Cost Reporting Toolkit)
Médicos sem Fronteira, Technical Brief, abril de 2025
https://msfaccess.org/transparency-core-clinical-trial-cost-reporting-toolkit
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: custos de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos,
transparência nos custos de ensaios clínicos, financiamento da
biomedicina, ferramentas de transparência sobre os custos de
pesquisa
se com o compartilhamento aberto de informações e custos
relacionados a ensaios clínicos conduzidos ou apoiados pela
organização. Para testar a implementação dessa política, a MSF
tomou medidas para publicar os custos do ensaio clínico TBPRACTECAL [2], um estudo multicêntrico, randomizado e
controlado, destinado a avaliar a eficácia e a segurança de um
regime de tratamento totalmente oral de seis meses para pessoas
que vivem com tuberculose (TB).
Os ensaios clínicos são amplamente reconhecidos como o
componente mais caro da pesquisa e desenvolvimento (P&D) de
um produto médico, embora seus custos reais permaneçam não
divulgados. A transparência dos custos dos ensaios clínicos é
necessária para orientar políticas de precificação e desenvolver
formas inovadoras de financiar a P&D biomédica — medidas
que podem promover maior acesso a produtos médicos.
O processo de desenvolvimento e execução de uma metodologia
para identificar todos os custos relacionados ao TBPRACTECAL também permitiu a criação do kit de
ferramentas “Transparency CORE”, destinado a facilitar a
análise e a publicação de custos de ensaios clínicos futuros. O kit
é composto por:
Reconhecendo a importância da transparência nos custos de
ensaios clínicos, Médicos Sem Fronteiras (Médecins Sans
Frontières – MSF) adotou, em 2022, uma Política de
Transparência em Ensaios Clínicos (CTTP) [1], comprometendo3
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
•
•
Referências
1. MSF. MSF Clinical Trial Transparency Policy 2022
https://msfaccess.org/sites/default/files/202211/R%26D_MSF_Clinical%20Trial%20TransparencyPolicy_2022_E
NG.pdf
2. MSF. In precedent-setting move towards drug-development cost
transparency, MSF reveals cost of its landmark TB clinical trial: €34
million. 25 de abril de 2024 https://msfaccess.org/precedent-settingmove-towards-drug-development-cost-transparency-msf-reveals-costits-landmark-tb
3. MSF. Transparency CORE: Clinical Trial Cost Reporting ToolkitA
user manual. Abril 2024 https://msfaccess.org/sites/default/files/202404/Transparency%20CORE%20toolkit_manual.pdf
um manual, que fornece os procedimentos operacionais
padrão para o cálculo dos custos de um ensaio e as diferentes
categorias de custos envolvidas [3]; e
um modelo em Excel para o relato e a análise dos custos.
(Disponível neste link:
https://msfaccess.org/sites/default/files/202404/Transparency CORE toolkit_costing template.xlsx)
Incentivamos os patrocinadores e executores de ensaios clínicos
a utilizarem o kit de ferramentas e a aprimorá-lo, de modo a
facilitar a publicação de dados de custos e contribuir para uma
maior transparência na P&D de produtos médicos.
Uma ferramenta da Organização Mundial da Saúde para avaliar sistemas de supervisão ética em pesquisa
(A World Health Organization tool for assessing research ethics oversight systems)
CH Coleman, A Khadem, JC Reeder, HB Sillo, R Gaspar, A Reis.
Bull World Health Organ. 2025 Jun 1;103(6):403-409. doi: 10.2471/BLT.24.292219.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12161159/ (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: supervisão ética da pesquisa; ferramenta da OMS para
supervisão ética; avaliação da qualidade dos sistemas; Ética e
Governança em Saúde da OMS
conduzem pesquisas em saúde com seres humanos, como centros
médicos acadêmicos.
Os indicadores relacionados ao contexto nacional devem ser
avaliados em uma única análise, aplicável ao país como um todo.
Já os indicadores referentes aos comitês de ética em pesquisa e
às instituições de pesquisa devem ser avaliados individualmente,
entidade por entidade.
Resumo
Embora a maioria dos países possua sistemas de supervisão ética
para pesquisas em saúde que envolvem participantes
humanos, os mecanismos para avaliar a qualidade desses
sistemas não são utilizados regularmente, especialmente em
contextos com poucos recursos.
Alguns países podem optar por avaliar uma amostra
representativa de comitês de ética e instituições;
alternativamente, as autoridades nacionais podem solicitar que os
comitês e instituições realizem autoavaliações e relatem os
resultados.
Para enfrentar essa lacuna, as unidades de Fortalecimento de
Sistemas Regulatórios, Regulação e Segurança e de Ética e
Governança em Saúde da Organização Mundial da Saúde
(OMS) lançaram recentemente uma ferramenta de referência
(benchmarking) para a supervisão ética de pesquisas em saúde
envolvendo seres humanos.
Os próprios comitês de ética ou instituições também podem
utilizar a ferramenta da OMS de forma independente, como parte
de um processo de aprimoramento da qualidade.
A ferramenta fornece um conjunto simples e de fácil mensuração
de indicadores para avaliar a qualidade dos sistemas de
supervisão ética em pesquisa, sem necessidade de grandes
investimentos de recursos. Ela é composta por 48
indicadores distribuídos em três áreas: (i) contexto nacional;
(ii) comitês de ética em pesquisa; e (iii) instituições que
A OMS está trabalhando com parceiros globais para disseminar a
ferramenta e apoiar sua implementação em escala mundial.
Espera-se que o uso amplo da ferramenta fortaleça a coerência
das políticas de supervisão ética e facilite a realização de
pesquisas multinacionais.
Código Prepared: Um código de conduta internacional para a pesquisa durante pandemias
Consorcio Internacional, Proyecto Prepared, 5 de junio de 2025
https://prepared-project.eu/wp-content/uploads/2025/07/The-Prepared-CodeSpanish.pdf (livre acesso em espanhol)
Os desafios éticos e de integridade na pesquisa durante
pandemias não são únicos, mas se amplificam significativamente
em tempos de crise.
O código foi elaborado por um consórcio internacional e baseiase em revisões de literatura realizadas em inglês, chinês, francês,
alemão, hindi, japonês, coreano, russo e espanhol.
Foi aprimorado a partir de uma análise sob a perspectiva
dos direitos humanos e de amplas consultas com as partes
interessadas. Em todas as etapas, foram incorporadas
contribuições de populações marginalizadas.
O Código PREPARED, destinado a pesquisadores/as, comitês de
ética em pesquisa e escritórios de integridade científica, é
aplicado ao longo de toda uma pandemia.
4
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
O CÓDIGO PREPARED:
• Reconhece e considera a Declaração de Helsinque como a
principal fonte de orientação ética na pesquisa durante
pandemias.
• Oferece apoio a todo o espectro de disciplinas de pesquisa.
• Apresenta declarações concisas e claras para facilitar o
acesso.
• Combina orientações sobre ética e integridade da pesquisa.
• Complementa o Código TRUST e o Código Europeu de
Conduta para a Integridade na Pesquisa, reconhecendo que
os riscos de uma pesquisa não equitativa e as violações de
integridade podem aumentar durante uma crise.
• Relaciona cada artigo aos valores de equidade, respeito,
cuidado e honestidade.
VISÃO
A pesquisa durante pandemias deve ser confiável, e seus
resultados devem ser acessíveis a todas e todos.
Nota de SyF: O código apresenta 27 artigos organizados em
torno desses valores: equidade, respeito, cuiddo, honestidade. O
Código PREPARED complementa outros Referênciais éticos
internacionais, como a Declaração de Helsinque, o Código
TRUST e o Código Europeu de Conduta para a Integridade na
Pesquisa, oferecendo orientações práticas para situações de crise
sanitária. Seu objetivo é promover uma cultura global de
pesquisa responsável, colaborativa e transparente durante
pandemias, assegurando que a ciência sirva ao bem público e aos
direitos humanos. Mais informações, materiais formativos e
vídeos estão disponíveis em:
https://preparedcode.uclancyprus.ac.cy
Globalização dos Ensaios Clíncios
Entrevista sobre os ensaios clínicos na América Latina: Riscos e dilemas éticos da “inovação científica”
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Na América Latina, a expansão dos ensaios clínicos patrocinados
pela indústria farmacêutica transnacional tem levantado sérias
questões éticas e regulatórias.
por especialidade — são mais positivos em doenças respiratórias
e piores no caso de produtos oncológicos. Esses números
poderiam melhorar com o uso da farmacogenômica.
A Colômbia se consolida como um centro regional para esse tipo
de pesquisa. Nesse panorama complexo e cheio de tensões entre
inovação, economia e bioética, propomos uma série de reflexões
que apresentamos em formato de entrevista. Natalia Castrillón
entrevista Nuria Homedes (NH) e Bernardo Useche (BU).
No entanto, a maioria dos ensaios clínicos realizados na América
Latina é de Fase III, e a taxa de sucesso desses ensaios é de cerca
de 50%. Assim, podemos presumir que apenas metade dos
produtos experimentais testados em ensaios de Fase III na região
será aprovada pelas agências reguladoras de referência — e,
levando em conta que apenas metade dos participantes recebe o
medicamento experimental (a outra metade costuma receber o
tratamento habitual ou placebo), fica claro que apenas uma parte
dos participantes se beneficia.
1. Por que é necessário realizar tantos ensaios clínicos? A
“inovação científica” tem realmente uma contribuição
significativa?
NH. Não se sabe exatamente quantos ensaios clínicos são
iniciados globalmente em um determinado ano, mas são
milhares. Apenas na Colômbia, a cada ano, registram-se mais de
60 ensaios clínicos financiados pela indústria farmacêutica.
Também sabemos que as agências regulatórias de referência
(FDA, EMA) aprovam — em um bom ano — de 40 a 50 novos
produtos, mas, desses, segundo as próprias agências e boletins
independentes sobre medicamentos, apenas um ou dois
acrescentam algum valor terapêutico aos tratamentos existentes.
Também é importante lembrar que alguns efeitos adversos de
medicamentos só se tornam conhecidos quando aumenta o
número de pessoas que os utilizam. Por isso, há quem recomende
não consumir medicamentos novos até sete anos após sua
aprovação, para que haja tempo de conhecer seu perfil de
segurança1. As informações disponíveis indicam que a maioria
dos produtos que se revelam inseguros quando usados pela
população geral é retirada do mercado dentro desse período.
Há anos em que nenhum dos medicamentos recém-aprovados é
superior ao tratamento padrão, e há anos em que surge um
medicamento realmente revolucionário. O que geralmente ocorre
é que esses novos medicamentos são mais caros que os já
existentes.
2. Quais são os riscos para os participantes?
NH. O principal risco para os participantes é o uso de um
produto experimental — ou seja, eles fazem parte de um
experimento. Essa palavra praticamente desapareceu do
vocabulário usado para falar de ensaios clínicos2, inclusive em
países de língua espanhola, devido às conotações negativas de
dizer que se está se fazendo “experimentação em seres
humanos”. Costumamos nos referir aos ensaios como protocolos,
projetos ou estudos.
Outro ponto a considerar é que, de acordo com dados da própria
indústria, apenas cerca de 10% dos produtos testados em ensaios
clínicos com seres humanos (da Fase I à Fase III) acabam sendo
aprovados pelas agências reguladoras de referência. Ou seja,
muitas moléculas ficam pelo caminho. Esses percentuais variam
1
2
Sidney M Wolfe. The seven-year rule for safer prescribing. Aust Prescr
2012;35:138-9 https://australianprescriber.tg.org.au/articles/the-sevenyear-rule-for-safer-prescribing-1.html
Elliott, C. Whatever Happened to Human Experimentation? Hastings
Center Report, 2016;46: 8-11. https://doi.org/10.1002/hast.531
5
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
impede de acessar informações importantes — como as
descobertas pela agência peruana.
Outro risco identificado pela agência reguladora de ensaios
clínicos do Peru é que os participantes nem sempre seguem as
orientações do pesquisador principal ou do coordenador do
estudo. Isso não ocorre por má intenção, mas por ignorância ou
para “não incomodar”. Eles desconhecem a importância de
seguir corretamente as instruções e o impacto disso nos
resultados. Às vezes, quando se sentem mal após tomar o
medicamento à noite ou no fim de semana, não informam à
equipe de pesquisa para não incomodar 3.
Apenas dois hospitais de uma província de Buenos Aires
contrataram profissionais para verificar se os participantes
compreendem o termo de consentimento antes de assiná-lo,
mas não há acompanhamento posterior. Esse acompanhamento
seria essencial tanto para assegurar a integridade dos dados
coletados quanto para proteger os participantes. Alguns CEP têm
interesse em adotar esse tipo de monitoramento, mas não têm
tempo nem recursos — e a atividade não é remunerada.
A agência peruana descobriu que muitos participantes tomavam
outros medicamentos ou produtos de medicina tradicional e não
informavam o médico pesquisador. Alguns recorriam a prontossocorros sem mencionar que participavam de um ensaio clínico;
outros tomavam apenas metade da dose prescrita. Essas
informações nem sempre eram compartilhadas com o
pesquisador, pois temiam ser excluídos do “projeto” (protocolo)4.
5. Como os médicos garantem que os pacientes seguem suas
recomendações e a frequência de dosagem?
NH. Isso depende do protocolo. Existem várias metodologias
para tentar documentar a adesão ao tratamento, mas o problema é
que os participantes desejam agradar o pesquisador — querem
permanecer no estudo e, por isso, nem sempre compartilham
todas as informações.
Vale destacar que os participantes costumam estar muito
satisfeitos com o atendimento, a privacidade e os exames
realizados. Sentem-se bem cuidados e, muitas vezes, não têm
consciência dos riscos envolvidos no produto experimental ou
nos procedimentos clínicos realizados.
Os entrevistados no estudo do Peru relataram: “Por favor, não
conte ao pesquisador, senão ele me expulsará do estudo.”
A pessoa encarregada de entrevistar os participantes precisa
conquistar sua confiança — ser alguém em quem eles possam
confiar, que não os “delate” e que demonstre preocupação
genuína com sua segurança e saúde.
3. O termo de consentimento informado não orienta os
participantes a procurar o centro de pesquisa nesses casos?
NH. Sim, o termo de consentimento informado prevê isso, mas
muitos participantes o assinam sem ler. E, quando leem, é
reconhecido que não entendem. Fazem o que lhes é dito porque
confiam no médico — e, em alguns casos, há indução
indevida por parte do recrutador.
6. Diante da acessibilidade dos novos medicamentos
aprovados e de sua posterior comercialização, quais são os
principais desafios para a América Latina?
NH. Há alguns anos, em 2015 e 2016, revisamos os
medicamentos aprovados pela FDA em 2012 que haviam sido
testados na América Latina — eram 33 — e descobrimos
que 30% não haviam sido registrados nem comercializados em
nenhum dos países latino-americanos onde foram testados. As
empresas farmacêuticas simplesmente não tinham interesse em
comercializar esses medicamentos nesses países e, portanto, não
os registraram. Em alguns casos, chegaram a registrá-los,
mas não os colocaram no mercado, esperando que as condições
fossem mais favoráveis Apenas 25% dos medicamentos
(n=8) foram comercializados em todos os países onde haviam
sido testados. Entre esses medicamentos, apenas um custava
menos que um salário mínimo mensal; a imensa maioria
custava mais de cinco salários mínimos, e em um caso chegou
a custar 899 vezes o salário mínimo mensal.6
No estudo realizado no Peru, alguns entrevistados relataram: “O
médico me disse que, se eu fosse sua filha, me inscreveria no
ensaio”; “Disse que, se eu participasse, me curaria”; ou “Que, se
participasse, teria acesso ao melhor tratamento; caso contrário,
apenas ao do setor público.” 5
Às vezes, o participante lê o termo apenas ao chegar em casa —
mas esses documentos são cada vez mais longos, cheios de
termos técnicos que nem mesmo membros de Comitês de Ética
em Pesquisa (CEP) compreendem. É muito difícil transmitir
todas as informações necessárias em um único documento.
A maioria dos entrevistados sabia que deveria ir ao centro de
pesquisa caso se sentisse mal, mas não o fez para não
incomodar ou porque não associou o problema à participação no
ensaio.
Além disso, boletins independentes de medicamentos haviam
avaliado a vantagem comparativa de 26 desses novos
medicamentos em relação aos tratamentos existentes. Dez foram
classificados como “não usar”; apenas cinco foram considerados
possivelmente superiores para populações especiais, geralmente
pequenas; e apenas três desses medicamentos haviam sido
comercializados nos países onde foram testados.
4. Quem supervisiona o comportamento do paciente que
participa dos ensaios clínicos?
NH. A regulamentação da maioria dos países latino-americanos
exige que os CEP acompanhem os participantes, mas isso é feito
com base apenas nos documentos fornecidos pelo pesquisador
principal, pelo patrocinador ou pelas agências reguladoras.
Eles não conversam diretamente com os participantes, o que os
3 Minaya G, Fuentes D, Ugalde A, Homedes N. A missing piece in clinical
5 Ibid
trial inspections in Latin America: interviews with research subjects in
Peru. Journal of Empirical Research on Human Research Ethics;
2017;12(4) 232–245. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28728496/
4 ibid
6 Homedes N, Ugalde A. Ensayos clínicos en América latina:
implicancias para la sustentabilidad y seguridad de los mercados
farmacéuticos y el bienestar de los sujetos. Salud Colectiva 2016; 12(3):
317-345 https://revistas.unla.edu.ar/saludcolectiva/article/view/1073
6
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Em outras palavras, a maioria dos medicamentos testados na
América Latina, quando comercializados, se mostrou inacessível
para a maioria da população e dos sistemas de saúde da
região. Além disso, a maioria não é superior aos tratamentos
existentes.7
observações de metodologistas de renome sobre a qualidade
duvidosa do desenho de muitos desses ensaios.
Os países, por sua vez, competem para aprovar o mais
rapidamente possível os ensaios patrocinados pela indústria, a
fim de atrair mais estudos. Membros de CEP entrevistados em
vários países da América Latina (Argentina, México, Costa Rica,
Panamá, Peru e Colômbia) afirmaram que, ao avaliar ensaios
clínicos financiados pela indústria, não costumam solicitar
alterações, pois isso atrasaria o recrutamento de
participantes e poderia prejudicar o pesquisador e a instituição.8
7. Quais são as principais fragilidades estruturais que a
senhora identificou nos comitês de ética em pesquisa clínica
na América Latina e como eles podem ser fortalecidos para
priorizar a saúde pública em detrimento dos interesses
comerciais?
NH. As fragilidades que identificamos na América Latina não
são exclusivas da região — também estão presentes em países de
alta renda. O primeiro problema é que um Comitê de Ética em
Pesquisa (CEP) pode ser constituído com apenas cinco membros.
Na maioria dos casos, os CEP são maiores (entre 7 e 15 pessoas),
para garantir quórum. Esses comitês avaliam todos os tipos de
projetos: desde ensaios clínicos com medicamentos financiados
pela indústria, até teses de estudantes e ensaios com dispositivos
médicos.
Em resumo, a maioria dos CEP — embora não todos — tende a
aprovar os ensaios clínicos patrocinados pela indústria. A
proporção de estudos rejeitados é muito baixa e, em geral, se
deve a problemas administrativos.
Uma possível solução seria profissionalizar os CEP que recebem
ensaios clínicos patrocinados, de modo que sua avaliação seja
feita por especialistas na área temática. Isso não eliminaria os
CEP institucionais, que poderiam aCEPtar ou rejeitar o parecer
do CEP especializado, mantendo-se responsáveis por monitorar e
proteger os participantes.
Além disso, trata-se de uma função mal remunerada, e com
frequência os membros trabalham de forma voluntária (ad
honorem). Como resultado, nem todos os CEP que analisam
protocolos de ensaios clínicos com medicamentos contam com
especialistas clínicos na área em que o produto será aplicado,
nem com metodologistas especializados em ensaios clínicos.
Assim, embora esses comitês possam avaliar teses de
estudantes, muitos não têm a capacidade técnica necessária para
avaliar o desenho dos ensaios clínicos apresentados pela
indústria, que normalmente são muito bem elaborados.
8. Que condições deveriam ser estabelecidas para que a
Colômbia se consolidasse como centro regional de ensaios
clínicos sem comprometer a soberania farmacêutica nem a
proteção dos participantes?
Na verdade, acho que não deveria se consolidar. Não vejo
vantagens nisso…
9. Como a Colômbia e outros países da América Latina se
beneficiam da realização de ensaios clínicos?
Agências internacionais e governos argumentam que é
importante realizar ensaios clínicos para: (1) dinamizar a
economia e (2) desenvolver a capacidade de pesquisa.
Os CEP têm a possibilidade de consultar especialistas externos,
mas poucos o fazem.
Outro problema é que os ensaios clínicos são um negócio. Isso
não aparece nos formulários de consentimento informado,
embora haja debate sobre se deveria constar. Tanto
os pesquisadores principais quanto os centros de pesquisa se
beneficiam economicamente da realização de ensaios clínicos.
Muitos CEP incluem membros que realizam ou já realizaram
ensaios patrocinados pela indústria e, portanto, têm um viés —
nem sempre reconhecido — de favorecer seus colegas. É o
conhecido “hoje por você, amanhã por mim.”
No entanto, não encontramos evidências que sustentem esses
argumentos.
Segundo dados da própria indústria, em 2016, cada ensaio clínico
realizado em um país latino-americano gerava entre um e dois
milhões de dólares. No caso da Colômbia, isso representaria
cerca de US$ 140 milhões (talvez o dobro, considerando
externalidades)9. No entanto, isso não representa lucro líquido,
pois é preciso descontar os gastos do INVIMA com a aprovação
e supervisão dos ensaios, bem como os custos operacionais dos
CEP.
Também se sabe que, em alguns casos, os administradores de
hospitais ou centros de pesquisa impõem sua vontadepara que
determinados ensaios sejam realizados.
É importante destacar que a maioria dos CEP não tem acesso aos
contratos entre o patrocinador e o pesquisador e/ou o centro de
pesquisa, o que os impede de avaliar se há cláusulas que possam
induzir violações dos critérios de inclusãoou a manutenção de
pacientes que deveriam ser retirados do estudo.
Também é necessário considerar os custos médicos das pessoas
que participam dos ensaios e sofrem eventos adversos,
frequentemente cobertos pelo erário público ou por seguradoras,
além do tempo do pessoal de saúdeenvolvido no recrutamento e
na verificação dos critérios de inclusão. Em muitos casos, esses
custos não são pagos pelos patrocinadores, recaindo sobre o setor
público, sobre as seguradoras ou sendo absorvidos pelos próprios
profissionais.
O resultado final é que os CEP tendem a aprovar os ensaios
clínicos apresentados pela indústria, o que contrasta com as
7
9 Pugatch Consilium. Challenges and Opportunities -Developing the
8
biotechnology sector in Colombia. 2016.
https://www.pugatchconsilium.com/reports/Challenges%20and%20Opportunities_v6.pdf
Ibid
Puede leer los resultados de estas entrevistas en
https://www.saludyfarmacos.org/publicaciones/informes/
7
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Até onde sabemos, ninguém calculou o montante total investido
pelos países para permitir que a indústria realize ensaios
clínicos. Assim, o benefício líquido desses ensaios para a
economia colombiana — ou de qualquer outro país — é
desconhecido.
comércio com a Europa e os Estados Unidos. Além disso, o
governo de Gustavo Petro, por meio de um decreto presidencial
recente, manteve em vigor as normas de propriedade
intelectual estabelecidas nesses tratados11.
De acordo com o relatório da Associação Colombiana de Centros
de Pesquisa Clínica (ACIC) de 2024, 160 centros de
pesquisa estavam conduzindo 332 ensaios clínicos, aos quais se
somaram naquele ano outros 29 estudos, totalizando US$ 73
milhões. Desses 361 experimentos, 89 foram patrocinados pela
Merck Sharp & Dohme, 37 pela Novartis, 27 pela
AstraZeneca e 19 pela Bristol Myers12.
Outro argumento frequentemente usado é que os ensaios
clínicos contribuem para o desenvolvimento científico. No
entanto, temos sérias reservas quanto a essa afirmação, pois o
que os cientistas realmente precisam aprender é a elaborar
projetos de pesquisa e analisar os dados obtidos.
A grande maioria dos que participam de ensaios patrocinados
pela indústria não participa do desenho da pesquisa nem da
análise dos resultados — limitam-se a coletar dados. Isso não é
capacitação científica; é apenas administração de um projeto
desenhado em países de alta renda, onde também são analisados
os dados coletados na Colômbia.
Segundo a Associação de Laboratórios Farmacêuticos de
Pesquisa e Desenvolvimento (AFIDRO), até 28 de agosto de
2025, já havia mil estudos clínicos em andamento na Colômbia13.
As multinacionais farmacêuticas, por meio da AFIDRO,
pretendem “consolidar a Colômbia como um hub regional de
pesquisa” na América Latina. Na minha opinião, com essa
estratégia, a indústria busca ampliar sua posição dominante em
um mercado em expansão entre a população idosa, competir com
a China14 — que se consolidou como potência mundial em
pesquisa clínica — e compensar a perda de
rentabilidade decorrente do controle de preços imposto nos
Estados Unidos pelo presidente Trump, por meio de
várias ordens15 executivas presidenciais16.
Para fortalecer de fato as capacidades de pesquisa, seria
necessário investir em bolsas de estudos de doutorado, tanto na
Colômbia quanto no exterior.
10. Perguntamos ao Dr. Bernardo Useche: Como as reflexões
feitas pela Dra. Homedes sobre os ensaios clínicos podem ser
compreendidas no contexto da política farmacêutica na
Colômbia?
BU. A Dra. Homedes realizou uma análise que revela
informações importantes e pouco conhecidas sobre os ensaios
clínicos conduzidos por multinacionais farmacêuticas. Dois
pontos, em especial, chamam a atenção: (1) O fato de que
são muito poucos os produtos farmacêuticos resultantes desses
experimentos clínicos que, uma vez aprovados e lançados no
mercado, realmente trazem algo novo ao tratamento de
pacientes que já dispõem de medicamentos existentes. (2) Que
esses ensaios clínicos são um excelente negócio, no qual a
indústria, os centros de pesquisa, os investigadores e as agências
ou profissionais que recrutam participantes se beneficiam,
enquanto os pacientes pouco ou nada ganham com isso.
Parte integrante dessa estratégia é o lobby para que os governos
latino-americanos aumentem o orçamento da saúde.Segundo a
diretora-executiva da Associação Colombiana da Indústria
Farmacêutica (ASCIF), na Colômbia, os medicamentos já
representam entre 25% e 30% da Unidade de Pagamento por
Capitação (UPC).
(Nota de SyF: A UPC é o valor que o Estado colombiano paga
por cada cidadão; esse valor varia conforme o ciclo de vida, o
regime de afiliação ao sistema de seguridade social —
contributivo ou subsidiado — e a área geográfica.)
O caso de Carolina Jiménez, na Colômbia, é ilustrativo: apesar
do que estava previsto no termo de consentimento informado, a
participante não foi informada dos resultados do ensaio
clínico que comprometiam gravemente sua saúde 10.
Considerando que os produtores de medicamentos patenteados
buscam obter uma fatia maior dos recursos públicos, é possível
prever que, na medida em que essa projeção se concretize, a
sustentabilidade financeira do sistema de saúde colombiano será
seriamente comprometida.
Na Colômbia, cresce o número de ensaios clínicos realizados
pela indústria em busca de novos medicamentos patenteáveis,
aproveitando-se das vantagens concedidas pelos tratados de livre
Não há dúvida de que as multinacionais continuarão a ser atoreschave no mercado farmacêutico latino-americano, mas torna-
10 Palacios C. La Country me usó como conejillo. El Tiempo, 29 de
13 Asociación de Laboratorios Farmacéuticos de Investigación y
agosto de 2025. https://www.eltiempo.com/opinion/columnistas/lacountry-me-uso-como-conejillo-3485283
11 Ministerio de Salud y Protección Social. Decreto Presidencial 858 de
2025, artículo 2.11.2.4.2.
Mecanismos de participación para la investigación, desarrollo y
producción nacional de Tecnologías Estratégicas en Salud.
https://www.funcionpublica.gov.co/eva/gestornormativo/norma.php?i=2
61736
Desarrollo (AFIDRO). La investigación clínica. Consultado 28-08-2025.
https://afidro.org/la-investigacion-clinica/
14 Bruckner T. New study shows that China is now a global powerhouse
of clinical research. TranspariMed, 26 de mayo de 2025.
https://www.transparimed.org/single-post/new-study-shows-that-chinais-now-a-global-powerhouse-of-clinical-research
15 Presidency Executive Order 14273 of April 15, 2025;
https://www.federalregister.gov/documents/2025/04/18/202506837/lowering-drug-prices-by-once-again-putting-americans-first
16 Presidency Executive Order 14297 of May 12, 2025;
https://www.federalregister.gov/presidential-documents/executiveorders/donald-trump/2025
12 Asociación Colombiana de Centros de Investigación Clínica (ACIC).
Resumen de la Medición del aporte económico de la investigación
clínica en Colombia, Estudio 2024. https://aciccolombia.org/wpcontent/uploads/2025/03/INFOGRAFIA.pdf
8
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
se fundamental fortalecer a indústria nacional. Trata-se de
uma questão de segurança e soberania farmacêutica.
Novo estudo mostra que a China se tornou uma potência global em pesquisa clínica
(New study shows that China is now a global powerhouse of clinical research)
T Bruckner
TranspariMed, 26 de mayo de 2025
https://www.transparimed.org/single-post/new-study-shows-that-china-is-now-a-global-powerhouse-of-clinical-research
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: China potência em pesquisa clínica, registro de ensaios
clínicos; deficiências na qualidade do registro de informações
Lacunas de dados em ensaios clínicos na Ásia Oriental
Os autores do novo estudo também tentaram documentar quantos
resultados de ensaios clínicos nunca foram publicados na China,
Japão, Coreia do Sul e Taiwan, mas descobriram que:
A China é agora o principal centro mundial de ensaios clínicos.
Um novo estudo [1], baseado em dados de múltiplos registros de
ensaios clínicos, mostra que, em 2023, foram registrados na
China mais de 11.000 ensaios clínicos intervencionistas —
aproximadamente 50% a mais do que nos Estados Unidos.
“Um dos problemas importantes foi a dificuldade para
determinar se o estudo havia sido concluído. Os dados foram
extraídos de vários registros da plataforma International
Clinical Trials Registry Platform (ICTRP), mas as diferenças
nos formatos dos diferentes registros impediram a recuperação
da informação sobre a conclusão do estudo, restando apenas
informações sobre o status de recrutamento.”
É claro que um número maior de ensaios não equivale
necessariamente a um maior avanço no conhecimento científico
útil. Por exemplo, o Reino Unido destacou-se por ter gerado
evidências sólidas e úteis sobre possíveis tratamentos para a
covid-19, justamente porque concentrou seus esforços em um
pequeno número de ensaios amplos e bem desenhados.
“Ao acessar as páginas da web (URL) do registro original, é
possível fazer uma revisão direta de cada registro, e foi fácil
encontrar a informação sobre a conclusão do estudo
em ClinicalTrials.gov. No entanto, no caso de outros registros,
foi difícil identificar com clareza o status ou as datas de
conclusão do estudo. Portanto, não pudemos avaliar
comparativamente as taxas de notificação de resultados dos
ensaios registrados em diferentes países.”
No entanto, o novo estudo deixa claro que a China é agora uma
potência mundial em pesquisa clínica.
Preocupação com a transparência
Isso é preocupante, pois há indícios de que a transparência nos
ensaios clínicos realizados na China pode ser consideravelmente
menor do que na Europa ou nos Estados Unidos.
Uma revisão recente da Cochrane [4], baseada em dados de mais
de 200 estudos, constatou que — em nível global — 47% dos
resultados de ensaios clínicos não são publicados, mas os estudos
revisados provinham majoritariamente do Atlântico Norte, o que
não responde à pergunta sobre o que ocorre com os ensaios
chineses (ou indianos, ou japoneses).
Estudos recentes, conduzidos por um bolsista da TranspariMED,
revelaram que a legislação chinesa não exige que empresas e
universidades publiquem os resultados de seus ensaios clínicos
[2], e encontraram indícios de deficiências na divulgação de
informações por parte das empresas biofarmacêuticas chinesas
que operam no exterior [3].
Essa persistente lacuna de conhecimento se deve, em parte, à
infraestrutura deficiente de registro, mas também ao fato de que a
maioria dos cientistas, reguladores e metapesquisadores ainda se
concentram na Europa e nos Estados Unidos, de forma um tanto
míope.
Da mesma forma, o novo estudo revelou que muitos ensaios
clínicos realizados na China e em outros países do leste da Ásia
não estão sendo registrados prospectivamente [1].
Fonte: Traduzido pela equipe editorial de Salud y F%C3%A1rmacos a partir do gr%C3%A1fico de Bruckner, T. New study
shows that China is now a global powerhouse of clinical research. TranspariMed, 26 de maio de 2025..
https://www.transparimed.org/single-post/new-study-shows-that-china-is-now-a-global-powerhouse-of-clinical-research
9
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
O desastre do registro global
Essas deficiências persistentes na infraestrutura do registro
global minaram os esforços de resposta à covid-19 em todo o
mundo [5] e continuam a impedir a obtenção de uma visão
abrangente sobre a pesquisa médica em andamento e sobre as
novas descobertas científicas.
promover a colaboração global e a transparência nos ensaios
clínicos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou recentemente
uma nova diretriz sobre a notificação de resultados em registros
de ensaios clínicos [6], que inclui o requisito de que os registros
contenham um campo específico para as datas de conclusão dos
estudos.
(Por exemplo, por que foi necessário um estudo complexo para
descobrir quantos ensaios clínicos estão sendo realizados na Ásia
Oriental e em quais áreas de doenças eles se concentram?)
A equipe do estudo concluiu que:
No entanto, ainda não está claro quando os numerosos
registros que alimentam a base de dados global da OMS adotarão
a nova diretriz.
“Muitos estudos, incluindo ensaios clínicos randomizados,
não foram registrados prospectivamente... Um problema
crítico que surgiu durante nossa análise foi a necessidade de
melhorar o controle de qualidade dos registros de ensaios...”
Referências
1. Lee EH, Lee S, Shin JI, Ioannidis JPA. Registered clinical trial trends
evolved differently in East Asia vs the United States during 20142023. J Clin Epidemiol. 2025 Jul;183:111791. doi:
10.1016/j.jclinepi.2025.111791. Epub 2025 Apr 17. PMID:
40250534.
2. Chen, Y.; Walters, J.; Bruckner, T. Clinical Trial Registration and
Reporting in China and the United States: Legal and Regulatory
Frameworks, Compliance and Enforcement. Preprints 2023,
2023101108. https://doi.org/10.20944/preprints202310.1108.v1
3. Till Bruckner, Yixuan Chen, Carolina Cruz, Christie
Ebube Dike, Belen Chavarria, Shiyu Chen, Ernest
Dela Dzidzornu, Martin Ringsten. Publication status and disclosure
gaps in a cohort of 71 clinical trials assessing the safety and efficacy
of 3 COVID-19 vaccines developed by Chinese biopharmaceutical
companies: An observational cohort study.
medRxiv 2024.03.17.24304386; doi: https://doi.org/10.1101/2024.03.
17.24304386
4. Showell MG, Cole S, Clarke MJ, DeVito NJ, Farquhar C, Jordan V.
Time to publication for results of clinical trials. Cochrane Database of
Systematic Reviews 2024, Issue 11. Art. No.: MR000011. DOI:
10.1002/14651858.MR000011.pub3. Accessed 17 August 2025.
5. Brucker T, Vidal J. Covid-19 ClinicalTrial Integrity. Impact on global
health and the future European regulatory agenda Transparimed, HAI.
Mayo 2022 https://haiweb.org/wp-content/uploads/2022/05/COVID19-Clinical-Trial-Integrity-May-2022.pdf
6. Chan, An-Wen et al. Reporting summary results in clinical trial
registries: updated guidance from WHO The Lancet Global Health,
Volume 13, Issue 4, e759 - e768
“A inconsistência no formato entre os registros, incluindo
variações na forma como as informações foram registradas,
gerou desafios significativos para a padronização dos dados e,
consequentemente, para a comparação do que ocorre em
diferentes países. Por exemplo, as categorias relacionadas ao
desenho do estudo, como alocação e randomização, foram
consideravelmente diferentes entre os diversos registros.”
“No ChiCTR [o registro chinês], os tamanhos de amostra
previstos para o grupo controle e para os braços de
intervenção múltipla são apresentados em formato de texto, e
não como um número total. Isso exigiu um esforço adicional
durante a extração dos dados. Se não houver uma
padronização adequada dos dados dos ensaios e um
fortalecimento do controle de qualidade, aumenta o risco de
se obter registros de ensaios imprecisos ou incompletos, o
que pode levar a interpretações equivocadas.”
Portanto, é crucial contar com melhores protocolos de
registro e controles de qualidade adequados, não apenas para
garantir a precisão e integridade dos dados, mas também para
Ensaios Clínicos e Ética
Brasil: Lei que regulamenta pesquisas científicas com seres humanos é questionada no STF
Cezar Camil
Supremo Tribunal Federal. Brasília, 19 de setembro de 2025
https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/lei-que-regulamenta-pesquisas-cientificas-com-seres-humanos-e-questionada-no-stf/
Publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: ADI 7875, Supremo Tribunal Federal, Sociedade Brasileira
de Bioética, Lei 14.874/2024, ética em pesquisa, vulnerabilidade,
acesso pós-estudo, direito à saúde, vício de iniciativa, controle social,
consentimento informado, SUS.
A entidade sustenta que a Lei 14.874/2024 restringe o direito de
indivíduos em condição de vulnerabilidade ao acesso contínuo a
tratamentos eficazes após o término dos estudos, o que violaria
princípios constitucionais como o direito fundamental à saúde.
A Sociedade Brasileira de Bioética entrou com ação no Supremo
Tribunal Federal (STF) contra a lei que regulamenta pesquisas
científicas com seres humanos. A Ação Direta de
Inconstitucionalidade (ADI) 7875 [1] foi distribuída ao ministro
Cristiano Zanin.
Na ação, a entidade também sustenta que a norma, de origem
parlamentar, criou órgão vinculado ao Ministério da Saúde,
usurpando competência reservada ao Poder Executivo, levando à
sua inconstitucionalidade devido ao vício de iniciativa.
Argumenta, ainda, que a legislação impõe ao Sistema Único de
Saúde (SUS ) e a instituições públicas custos adicionais sem
previsão orçamentária e fragiliza garantias de autonomia e
10
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Referência
Brasil. Supremo Tribunal Federal (STF). Ação Direta de
Inconstitucionalidade nº 7875 – Medida Liminar. Relator: Min.
Cristiano Zanin. Requerente: Sociedade Brasileira de Bioética – SBB.
Requerido: Presidente da República. Brasília, DF, 2025. Disponível
em: https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=7374850.
Acesso em: 18 out. 2025.
consentimento informado de participantes de pesquisas,
especialmente em situações de emergência.
Outro ponto destacado é a ausência de participação social efetiva
na governança da ética em pesquisa, em desacordo com a diretriz
constitucional de controle social no SUS.
Vulnerabilidade na ética em pesquisa: uma revisão sistemática de diretrizes e documentos de políticas
(Vulnerability in research ethics: A systematic review of policy guidelines and documents).
A Grigis, G Beretta, P Borry, V Sanchini.
PLoS One 2025; 20(7): e0327086. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0327086
https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0327086 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: ética em pesquisa, revisão sistemática ética de ensaios clínicos,
conceito ético de vulnerabilidade, população vulnerável
em maio de 2025, a fim de excluir resultados obsoletos. Foram
incluídos documentos de políticas em inglês, no campo da ética
em pesquisa com seres humanos, que abordassem o tema da
vulnerabilidade. Os critérios de elegibilidade abrangeram tanto
documentos de aplicação nacional quanto internacional.
Resumo
Contexto
A história da pesquisa envolvendo seres humanos demonstrou a
importância de oferecer a todos uma oportunidade igual de
participar de estudos, ao mesmo tempo em que se protege
aqueles que requerem atenção especial. Essa consideração é
particularmente relevante quando se trata de indivíduos
vulneráveis. No entanto, ainda há discordâncias quanto ao
significado de vulnerabilidade, à identificação e definição
de populações vulneráveis e à forma como esses conceitos
devem ser operacionalizados em documentos normativos para
implementar medidas adequadas, preventivas e respeitosas para
todos os que se enquadram nessa categoria.
Para a análise e síntese dos dados, os autores seguiram as etapas
da metodologia QUAGOL: leitura dos documentos (AG),
destaque das partes relevantes (AG), elaboração de um resumo
das seções destacadas (AG), avaliação e verificação dos resumos
em relação às etapas anteriores (AG, GB, VS), criação de um
esquema compreensivo (AG, GB, VS) e descrição dos resultados
(AG, GB, VS). Nenhuma ferramenta automatizada foi utilizada
em qualquer fase da revisão.
Resultados e discussão
Setenta e nove documentos de políticas foram incluídos na
revisão. Os resultados foram organizados em quatro subseções,
correspondentes a quatro perguntas de pesquisa. A análise desse
número expressivo e diversificado de documentos permitiu
identificar vários padrões recorrentes que caracterizam a forma
como a vulnerabilidade é descrita e abordada nos documentos
normativos. Com base em nossas experiências como bioeticistas,
especialistas em ética em pesquisa, em biotecnologia e em
coordenação de ensaios clínicos, identificamos temas centrais,
como: a tendência de identificar e definir grupos vulneráveis, em
vez de fornecer uma definição geral de vulnerabilidade, e a
tendência de relacionar a vulnerabilidade principalmente ao
processo de consentimento informado.
Objetivos
Seguindo as orientações do PRISMA-Ethics, realizamos uma
revisão sistemática de documentos de políticas para oferecer uma
visão abrangente sobre como a vulnerabilidade é conceituada e
operacionalizada na ética em pesquisa. O objetivo foi investigar
o significado e a definição de vulnerabilidade na ética da
pesquisa, sua justificativa normativa, o conjunto de sujeitos a que
se refere e as disposições correspondentes.
Métodos
Nossa busca concentrou-se em três fontes principais: (1) três
listas de referência que oferecem cobertura abrangente de
documentos e diretrizes de ética em pesquisa (International
Compilation of Human Research Standards, Listing of Socialbehavioral Research Standards e Ethics Legislation, Regulation
and Conventions); (2) bases de dados (PubMed e Web of
Science); e (3) literatura cinzenta (Google Scholar), para garantir
a completude dos documentos incluídos. As expressões de busca
foram desenvolvidas pelo último autor (VS) em consulta com o
coautor principal (GB). Todo o processo de triagem foi realizado
separadamente pelo primeiro autor (AG) e pelo coautor principal
(GB). A busca inicial foi conduzida em abril de 2023 e repetida
Conclusões
Somente uma compreensão adequada do significado de
vulnerabilidade, de suas implicações e de suas justificativas
normativas tornará possível assegurar uma participação justa e
eticamente legítima na pesquisa para todos os sujeitos
envolvidos. Como limitação do estudo, destacamos que apenas
publicações redigidas em inglês, ou oficialmente traduzidas para
o inglês, foram incluídas na revisão.
11
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
EUA: A ordem de suspensão de trabalhos do governo Trump provavelmente afetou 32 ensaios clínicos financiados pela USAID
(Trump Administration Stop-Work Order Likely Affected 32 USAID-Funded Clinical Trials)
Public Citizen, 10 de junio de 2025
https://www.citizen.org/news/trump-administration-stop-work-order-likely-affected-32-usaid-funded-clinical-trials/
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: financiamento USAID, suspensão de ensaios pela
administração Trump, administração Trump e ensaios clínicos, ajuda
externa dos EUA
A ordem de suspensão de trabalhos emitida em janeiro de 2025 pelo
governo Trump provavelmente afetou 32 ensaios clínicos financiados pela
USAID, conduzidos em 25 países e envolvendo até 94 mil participantes,
segundo um novo relatório da organização Public Citizen.
Os ensaios clínicos abrangiam temas de saúde como doenças
infecciosas, saúde infantil e programas de nutrição, além de saúde
reprodutiva. A Public Citizen constatou que o congelamento do
financiamento resultou em demissões de equipes, preocupações com a
segurança dos pacientes e desperdício de tempo e de recursos dos
contribuintes norte-americanos.
Alguns dados principais:
• Mais da metade dos ensaios (17 de 32) pesquisavam
especificamente as doenças infecciosas mais letais do mundo: infecção
pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), tuberculose e malária.
• Os ensaios financiados pela USAID afetados foram realizados
em cinco continentes, principalmente na África (13 países) e na Ásia
(nove países).
• Entre oito ensaios para os quais pessoas de contato forneceram
informações adicionais, sete foram interrompidos antes do
recrutamento de participantes ou após a conclusão da análise de
dados; um ensaio relatou pequenos problemas de segurança com os
pacientes.
• Os locais de estudo mais frequentemente mencionados entre todos os
ensaios foram: África do Sul (9 vezes); Quênia e Estados Unidos (6
vezes cada); e Uganda, Zâmbia e Zimbábue (4 vezes cada).
• O congelamento também atrasou a análise de dados e a publicação dos
resultados, além de reduzir a confiança na pesquisa médica.
No momento, é impossível conhecer todos os efeitos da ordem de
suspensão. Os registros públicos sobre projetos financiados pela USAID
foram apagados, e os pesquisadores afetados relutam em falar ou foram
proibidos de discutir plenamente os impactos. Nenhum responsável pelos
ensaios aceitou fornecer informações sem garantia de anonimato.
A suspensão repentina e sem justificativa médica dos ensaios
clínicos representou uma grave violação da ética em pesquisa, com
potencial para colocar em risco a saúde dos participantes e a integridade
científica dos estudos.
“A condução ética de ensaios clínicos é uma obrigação de
pesquisadores, instituições de pesquisa e financiadores — não uma
escolha”, afirmou Nina Zeldes, Ph.D., pesquisadora em saúde
do Health Research Group da Public Citizen e autora principal do
relatório. “Os pesquisadores ficaram impossibilitados de proteger o
bem-estar dos participantes e de cumprir suas obrigações éticas sem
violar a ordem de suspensão.”
Os outros autores do relatório são Greg Dudzik, M.D., MPH e Robert
Steinbrook, M.D., respectivamente pesquisador e diretor do Health
Research Group da Public Citizen.
“Os amplos efeitos da ordem de suspensão de trabalhos do governo
Trump devem servir como um alerta para o Congresso e para futuras
administrações”, disse Steinbrook. “Interromper abruptamente os
ensaios foi um ato escandaloso.”
Referência
1. Zeldes Nina, Dudzik Greg, Steinbrook Robert. USAID-Funded
Clinical Trials Affected by the Trump Administration’s Stop-Work
Order. Public Citizen, 10 de junio de 2025.
https://www.citizen.org/article/usaid-funded-clinical-trials-affectedby-the-trump-administrations-stop-work-order/
Abuso de prisioneiros afrodescendentes em estudos sobre malária
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: exploração de prisioneiros afrodescendentes, fármacos
antimaláricos, estudos sobre malária, ensaios com prisioneiros
acreditava-se que os experimentos haviam incluído
principalmente prisioneiros de ascendência europeia.
A revista Science publicou uma entrevista com James
Tabery sobre a participação de prisioneiros afrodescendentes em
estudos que buscavam compreender como a genética influencia
as reações a medicamentos antimaláricos [1]. A entrevista está
relacionada a um artigo publicado no JAMA [2]. A seguir,
resumimos o artigo publicado em Science.
James Tabery e seus colegas revelaram que, para estudar as
reações adversas ao medicamento, os pesquisadores de Stateville
introduziram o parasita da malária em prisioneiros
afrodescendentes sabidamente sensíveis à primaquina e lhes
administraram doses excessivas, cientes de que a maioria teria
uma reação adversa.
Na década de 1940, a Faculdade de Medicina da Universidade de
Chicago, o Exército dos Estados Unidos e o Departamento de
Estado conduziram um estudo sobre malária na penitenciária
de Stateville, que impulsionou o desenvolvimento da primaquina.
Os prisioneiros com um distúrbio genético conhecido
como deficiência de G6PD sofreram efeitos colaterais dolorosos,
como náuseas, fadiga e, em alguns casos, falência de órgãos.
Esses resultados, segundo Tabery, lançaram as bases da medicina
de precisão, isto é, da ideia moderna de adaptar o tratamento à
genética do paciente.
A prática de infectar deliberadamente os presos com o parasita da
malária para testar tratamentos gerou forte reação pública contra
o consentimento coercitivo em prisões. Até recentemente,
12
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Além do sofrimento a que foram submetidos, os prisioneiros
afrodescendentes receberam remuneração inferior à dos de
ascendência europeia, e os dados publicados os
identificavam (iniciais, altura e peso).
linhagem genética da sensibilidade à primaquina, o que questiona
como as dinâmicas coercitivas podem ultrapassar os muros da
prisão. Além disso, os pesquisadores pagaram menos aos
participantes afrodescendentesdos estudos de reações adversas do
que aos participantes brancos do estudo original sobre malária.
Durante a primeira década do estudo, os pesquisadores de
Stateville inscreveram apenas prisioneiros brancos, pois temiam
que os afrodescendentes não apresentassem a mesma reação que
buscavam induzir e, assim, pudessem distorcer os resultados.
Embora a base genética da sensibilidade a certos
medicamentos seja conhecida desde 1956, sua aplicação clínica
ainda é limitada por custos e problemas logísticos — como
ocorre com o teste de sensibilidade à primaquina em regiões
endêmicas de malária.
Por volta de 1950, os pesquisadores já tinham um medicamento
eficaz, a primaquina, mas algumas pessoas apresentavam reações
adversas graves, potencialmente fatais, que ocorriam com mais
frequência entre os prisioneiros afrodescendentes. Isso levou a
um segundo estudo, que durou 25 anos. Nesse estudo, “um grupo
relativamente pequeno de homens afrodescendentes, sabidamente
suscetíveis a essa reação adversa, foi exposto repetidamente à
primaquina, com coleta contínua de amostras de sangue para
determinar a causa genética”.
“Uma lição importante para cientistas e geneticistas que
buscam recrutar populações diversas para participar da
pesquisa é que devemos ter muita cautela ao prometer que a
participação ajudará a combater desigualdades em
saúde nessas comunidades.”
Isso é especialmente relevante em países de baixa e média renda,
onde, apesar de se saber que fatores genéticos influenciam as
respostas aos medicamentos, os sistemas de saúde não estão
preparados para realizar tais testes.
Segundo Tabery, esses estudos contribuíram para o
desenvolvimento da ética em pesquisa, pois “a comunidade
científica e médica começou a entender que o conceito de
consentimento em contextos altamente coercitivos, como as
prisões, não é tão claro quanto se acreditava”.
Fonte Original
1. Annika Inampudi. Historical records expose role of Black inmates in
unethical malaria studies decades ago. Science, 11 Jun 2025
https://www.science.org/content/article/historical-records-exposerole-black-inmates-unethical-malaria-studies-decades-ago
Ao redirecionar o foco da pesquisa antimalárica da década de
1940 — com prisioneiros brancos — para os estudos posteriores
sobre sensibilidade à primaquina com prisioneiros
afrodescendentes, observa-se que a questão não era apenas que
os segundos tiveram uma experiência mais dolorosa, mas
que havia implicações éticas mais amplas do que o mero
consentimento. Por exemplo, os pesquisadores trouxeram
familiares dos prisioneiros afrodescendentes para rastrear a
Referência
2. Allen H, Tabery J. The Black Prisoners of Stateville: Race, Research,
and Reckoning at the Dawn of Precision Medicine. JAMA.
2025;334(3):209–211. doi:10.1001/jama.2025.8024
https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2835218
EUA: Institutos Nacionais de Saúde cancelam estudos sobre a vacina contra a AIDS
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: vacina contra a AIDS, financiamento de vacinas, Scripps
Research, avaliação de vacinas
Embora os pesquisadores que atuam nesse campo reconheçam
que a vacina contra o vírus causador da AIDS ainda está distante,
as pesquisas em andamento forneceram novas pistas e renovaram
o otimismo, e muitos cientistas afirmam que os avanços
deveriam ser acompanhados de forma rigorosa.
Segundo a revista Science [1], o Instituto Nacional de Alergias e
Doenças Infecciosas (National Institute of Allergy and Infectious
Diseases – NIAID) informou que não renovará o
financiamento de dois importantes consórcios de pesquisa,
liderados pela Scripps Research e pela Universidade Duke, que
investigam vacinas contra a AIDS.
Sem o financiamento dos NIH, é provável que os grupos de
pesquisa que até agora vinham trabalhando em colaboração se
dissolvam, comprometendo os progressos alcançados.
O NIAID também notificou três de suas Unidades de Avaliação
de Vacinas em Primatas de que não lhes concederá contratos para
testar as vacinas desenvolvidas por esses consórcios nem aquelas
financiadas por outras subvenções dos Institutos Nacionais de
Saúde (NIH) em macacos.
Tudo indica que o financiamento para estudos relacionados ao
HIV/AIDS continuará, mas os projetos terão que seguir
abordagens científicas mais convencionais, não podendo ser tão
inovadores quanto os desenvolvidos por esses dois consórcios.
Ainda assim, é provável que os recursos destinados ao
desenvolvimento de vacinas contra o HIV sejam drasticamente
reduzidos.
Os consórcios, formados inicialmente em 2005, contam
com mais de uma dúzia de instituições parceiras.
Segundo Science [1], ainda não se sabe se a decisão partiu
dos NIH ou do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos
EUA (DHHS).
Fonte Original
1. John Cohen. ‘Devastating’: NIH cancels future funding plans for HIV
vaccine consortia. Researchers decry agency’s decision just as new
leads reinvigorate search for long-sought vaccine. Science, 30 de
13
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
mayo de 2025. https://www.science.org/content/article/devasting-nihcancels-future-funding-plans-hiv-vaccine-consortia
As tribulações da Moderna no Reino Unido
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: reputação da indústria, Autoridade do Código de Práticas de
Medicamentos Prescritos do Reino Unido, código de conduta da
indústria, Associação da Indústria Farmacêutica Britânica, multa à
Moderna
2024, mas o grupo afirmou ter trocado cartas com a empresa
sobre o assunto já em agosto de 2023. O UsForThem comunicou
essa discrepância à PMCPA.
Ao ser novamente questionada, a Moderna reiterou que só tomou
conhecimento da mensagem em 2024. A PMCPAconsiderou que
a recusa da empresa em investigar a denúncia demonstrava falta
de transparência e que a Moderna não estava mantendo os
padrões esperados dos membros da ABPI. Em resposta, a
empresa descreveu as medidas corretivas que implementou para
melhorar sua conformidade com as normas.
A Moderna está sendo auditada pela Autoridade do Código de
Práticas de Medicamentos com Prescrição do Reino Unido (UK’s
Prescription Medicines Code of Practice Authority – PMCPA), a
organização responsável por garantir que os membros
da Associação da Indústria Farmacêutica Britânica (Association
of the British Pharmaceutical Industry – ABPI) cumpram o seu
código de conduta.
Desde que ingressou na ABPI, em janeiro de 2023, a PMCPA já
investigou nove queixas contra a Moderna e emitiu cinco
decisões de desacreditação, levando o conselho de apelações a
determinar que a empresa deve passar por uma auditoria.
As auditorias da PMCPA podem resultar em novas auditorias ou
na exigência de que a empresa submeta previamente seus
materiais à revisão antes do uso público.
Em 2023, o Bradford Teaching Hospitals NHS Foundation
Trust publicou anúncios voltados a crianças com mais de 12
anos, oferecendo um certificado e um ursinho de pelúcia com a
frase “Participe da pesquisa”. A PMCPA descobriu que um
funcionário sênior da Moderna havia contribuído para o design
desses materiais e multou a empresa em US$ 56.000,
considerando que a ação prejudicou a reputação da indústria.
O conselho de apelações também pode denunciar a empresa à
diretoria da ABPI, que tem autoridade para suspender ou
expulsar membros da associação — embora suspensões sejam
raras.
Em outubro de 2024, a Moderna recebeu outra multa, de US$
17.850, por causa de uma mensagem no WhatsApp que
oferecia US$ 1.872 a menores de idade que participassem do
ensaio clínico NextCOVE Covid. Embora a empresa tenha
posteriormente reduzido o pagamento para US$ 231, ao menos
um site continuou divulgando a oferta original.
Fonte Original
1. Moderna, nuevamente declarada responsable de desacreditar a la
industria farmacéutica por falta de transparencia 'inaceptable'.
Consalud 35, 8 de mayo de 2025
https://www.consalud.es/salud35/internacional/moderna-nuevamentedeclarada-responsable-de-desacreditar-a-la-industria-farmaceuticapor-falta-de-transparencia-inaceptable.html
2. Media reports Moderna risking UK suspension due to cash, toys
offered to children. MENAFN, 28 de abril de
2025. https://menafn.com/1109480322/Media-reports-Modernarisking-UK-suspension-due-to-cash-toys-offered-to-children
A PMCPAconcluiu que o pagamento era “muito superior ao que
seria considerado um reembolso razoável” e que a Moderna
havia comprometido a credibilidade da indústria.
Quando o grupo ativista UsForThem leu o relatório da PMCPA,
percebeu que a Moderna havia declarado ter tomado
conhecimento da mensagem de WhatsApp apenas em janeiro de
Ensaios Clínicos Questionados
Editorial: A integridade dos ensaios clínicos randomizados: declarações de consenso de Hong Kong ao Cairo
(Editorial: The integrity of randomized clinical trials: consensus statements from Hong Kong to Cairo)
KS Khan, A Bueno-Cavanillas, J Zamora.
Front. Res. Metr. Anal. 2025;10:1588882. doi: 10.3389/frma.2025.1588882
https://www.frontiersin.org/journals/research-metrics-and-analytics/articles/10.3389/frma.2025.1588882/full (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: integridade na pesquisa, princípios e padrões éticos,
princípios genéricos de integridade em pesquisa, integridade dos
ensaios clínicos randomizados, guias de boas práticas do Cairo
pesquisadores e instituições [2]. Esses princípios genéricos de
integridade e padrões de pesquisa devem ser aplicados aos
estudos de biomedicina e ciências da vida, que sustentam a
pesquisa em saúde e constituem a base de evidências sobre a qual
se apoia a Medicina Baseada em Evidências (MBE).
A integridade da pesquisa exige que os pesquisadores e centros
de investigação sigam princípios e padrões éticos e profissionais
[1]. Em 2019, a Conferência Mundial sobre Integridade em
Pesquisa aprovou os Princípios de Hong Kong para
Na hierarquia das evidências, os ensaios clínicos randomizados
(ECR) ocupam os níveis mais altos, mas o crescente número de
14
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
retratações e de expressões de preocupação sobre sua
implementação gerou dúvidas sobre se a MBE tem sido afetada
pela incorporação de evidências problemáticas [3].
Analisar os problemas ao longo do ciclo de vida da pesquisa é
fundamental, pois não se pode esperar que a revisão por pares e
as avaliações editoriais eliminem ECR com falhas de integridade
em seu desenho e execução. É preciso agir em todas as fases,
envolvendo todas as partes interessadas e promovendo uma visão
compartilhada de responsabilidade na pesquisa [10].
O desenho dos ECR minimiza o risco de viés de seleção ao
alocar aleatoriamente os participantes em grupos experimentais
ou de controle e acompanhá-los para comparar os resultados. Daí
decorre que a integridade no desenho, condução, análise e
publicação dos ECR é essencial para garantir a confiabilidade
das evidências que fundamentam a MBE.
A avaliação da integridade dos artigos durante a revisão por
pares e nas sínteses de evidências é limitada pela falta de
validação das listas de verificação de integridade dos ECR [11,
12]. É importante reconhecer que a integridade da pesquisa é um
conceito multidimensional, que vai além da verificação de
manuscritos já concluídos. Ela abrange todo o processo:
concepção e desenho dos ECR, aprovação ética e consentimento,
execução e análise conforme o protocolo aprovado e o plano
estatístico registrado, além da apresentação e correção dos
resultados publicados.
Reconhece-se, portanto, a necessidade de especificar princípios
genéricos de integridade nessa disciplina. Os pesquisadores
envolvidos no desenho e execução dos ECR precisam
de políticas e diretrizes sólidas e específicas para assegurar a
integridade da pesquisa. O tema desta edição da Frontiers, “A
integridade dos ensaios clínicos randomizados”, aborda questões
relacionadas à integridade em diversas etapas do ciclo dos ECR.
Garantir a integridade em cada uma dessas etapas
é responsabilidade de pesquisadores, instituições acadêmicas,
agências de fomento e editoras, entre outros atores. Para isso, são
necessárias diretrizes específicas de integridade para os ECR.
Globalmente, existem cerca de 48.000 periódicos científicos, em
inglês e outros idiomas (aproximadamente 30%, ou 16.000, são
da área biomédica), com crescimento anual de cerca de 3% [4].
Entre as publicações submetidas à revisão por pares, a maior
parte das críticas se dirige à pesquisa biomédica e clínica.
No caso dos ECR, a guia genérica de integridade contida
nos Princípios de Hong Kong (2019) [2] e em suas versões
posteriores apresenta limitações [10]. Essas recomendações
visam promover uma conduta responsável em todas as
disciplinas científicas, mas, como a cultura de pesquisa é
específica de cada área, sua natureza genérica limita a
aplicabilidade.
Todos os anos, são publicados entre 25.000 e 30.000 ECR apenas
nas revistas indexadas na base de dados PubMed [3]. Ensaios
com problemas de integridade contaminam o ecossistema da
pesquisa biomédica e das ciências da vida, afetando as diretrizes
clínicas elaboradas por associações profissionais e
as autorizações de comercialização concedidas por órgãos
reguladores de medicamentos e dispositivos médicos.
Por exemplo, um documento de 2023 mostrou que os códigos de
conduta das universidades australianas envolvidas em pesquisa
médica e sanitária não enfatizaram adequadamente o registro de
protocolos, o fornecimento de códigos de análise e a prevenção
do “p-hacking”, entre outros princípios de transparência e
abertura [13].
A MBE é prejudicada pelo fato de que nem todos os ECR
publicados são conduzidos com o mesmo rigor científico. É
preciso concentrar esforços nos ECR, pois eles contribuem
diretamente para a prática clínica e para as recomendações de
políticas públicas. Ensaios clínicos com deficiências continuam
sendo citados e utilizados em revisões de evidências, e, quando
são retratados, raramente se corrigem as revisões sistemáticas e
diretrizes de prática clínica [5].
Nesse contexto, um grupo internacional de especialistas,
representando todo o espectro de partes interessadas,
desenvolveu as Declarações de Consenso do
Cairo especificamente sobre a integridade dos ECR.
Os artigos publicados nesta edição sobre “A integridade dos
ensaios clínicos randomizados” abrangem uma ampla gama do
ciclo de vida dos ECR. Por exemplo, um reanálise dos registros
do Registro Chinês de Ensaios Clínicos
(ChiCTR)destacou problemas de qualidade, um desafio global
sem fronteiras geográficas [6].
As partes envolvidas vieram de todos os continentes habitados,
de países desenvolvidos e em desenvolvimento, e
incluíram pesquisadores clínicos, representantes de
consumidores, associações profissionais, financiadores e editores
científicos.
Adotar uma conduta responsável na realização de ECR requer
enfrentar desafios, definir papéis, assegurar o desenvolvimento
profissional e fortalecer ambientes institucionais adequados [7].
Em relação à publicação dos ECR, uma análise de ensaios
sobre traumatismo cranioencefálico, registrados
no ClinicalTrials.gov, revelou lacunas de informação
preocupantes [8]. Já no estágio pós-publicação, verificou-se que
o número de citações de artigos retratados na área de reprodução
assistida é baixo, sendo o plágio o problema mais comum, e
os ECR o tipo de publicação mais frequentemente retratado nesse
campo [9].
As Declarações de Integridade do Cairo são guias de boas
práticas de pesquisa, baseadas em consenso internacionale
sustentadas pela literatura científica, para as etapas-chave de todo
o ciclo de vida dos ECR [14, 15].
Estabelecer consenso será um esforço contínuo, que exigirá
revisões e atualizações à medida que novas evidências surjam e
que a disciplina de pesquisa em ECR evolua. A atualização
recente da Declaração de Helsinque, promovida pela Associação
Médica Mundial, incorporando novas cláusulas sobre integridade
em pesquisa, é um sinal de que o avanço segue na direção
correta [16].
15
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
https://www.frontiersin.org/journals/medicine/articles/10.3389/fmed.2
024.1400585/full
8.Guo R, et al. Characteristic of clinical trials related to traumatic brain
injury registered on ClinicalTrials.gov over the past two decades
(2004–2023). Front. Med 2024; Vol 11.
https://www.frontiersin.org/journals/medicine/articles/10.3389/fmed.2
024.1435762/full
9.Minetto S, et al. Surveillance of clinical research integrity in medically
assisted reproduction: a systematic review of retracted publications.
Front Public Health 2023; Vol 11.
https://www.frontiersin.org/journals/publichealth/articles/10.3389/fpubh.2023.1210951/full
10. Butt, F. A., Nunez-Nunez, M., Juhász, B., Bueno-Cavanillas, A., and
Khan, K. S. (2024). The quality and reporting of recommendation
documents to enhance the integrity of clinical trials: a systematic
review and critical appraisal. Semergen 51:102333. doi:
10.1016/j.semerg.2024.102333
11. Khan, K. S., Cairo Consensus Group on Research Integrity (2023).
International multi-stakeholder consensus statement on clinical trial
integrity. BJOG Int. J. Obstet. Gynaecol. 130, 1096–1111. doi:
10.1111/1471-0528.17451
12. Núñez-Núñez, M., Cano-Ibáñez, N., Zamora, J., Bueno-Cavanillas,
A., Khan, K. S. (2023). Assessing the integrity of clinical trials
included in evidence syntheses. Int. J. Environ. Res. Public. Health
20:6138. doi: 10.3390/ijerph20126138
13. Ong, Y. K., Double, K. L., Bero, L., and Diong, J. (2023).
Responsible research practices could be more strongly endorsed by
Australian university codes of research conduct. Res. Integr. Peer
Rev. 8:5. doi: 10.1186/s41073-023-00129-1
14. Khan, K. S., Mohamed, F., and Chien, P. F. W. (2023). Integrity of
randomized clinical trials: performance of integrity tests and
checklists requires assessment. Int. J. Gynecol. Obstet. 163, 733–
743. doi: 10.1002/ijgo.14837
15. Khan, K. S., Fawzy, M., Chien, P., Geary, M., Bueno-Cavanillas, A.,
Nunez-Nunez, M., et al. (2025). International multistakeholder
consensus statement on post-publication integrity issues in
randomized clinical trials by Cairo Consensus Group. Int. J.
Gynaecol. Obstet. 169, 1093–1115. doi: 10.1002/ijgo.16118
16. World Medical Association (2025). World Medical Association
Declaration of Helsinki: ethical principles for medical research
involving human participants. JAMA 333, 71–74. doi:
10.1001/jama.2024.21972
Espera-se que esta edição da revista, dedicada à integridade dos
ensaios clínicos randomizados, ao enfatizar a importância de
definir o que constitui conduta responsável em cada disciplina,
represente um passo importante rumo à produção de pesquisa útil
para fortalecer a MBE.
Além disso, deve ter um impacto mais amplo, promovendo
uma cultura de integridade na pesquisa biomédica e nas ciências
da vida. Para além dos benefícios à MBE e à pesquisa em
saúde, defender a integridade científica é um investimento
essencial para recuperar e manter a credibilidade dos
cientistas como um grupo profissional respeitado e valorizado
pela sociedade.
Referências
1. Steneck, N. H. (2006). Fostering integrity in research: definitions,
current knowledge, and future directions. Sci. Eng. Ethics 12, 53–74.
doi: 10.1007/PL00022268
2. Moher, D., Bouter, L., Kleinert, S., Glasziou, P., Sham, M. H.,
Barbour, V., et al. (2020). The Hong Kong principles for assessing
researchers: fostering research integrity. PLoS Biol. 18:e3000737.
doi: 10.1371/journal.pbio.3000737
3. Khan, K. S. (2024). Integrity of Randomized Clinical Trials: How to
Prevent Research Misconduct and Ensure Transparency. Boca Raton,
FL: CRC Press. doi: 10.1201/9781003461401
4. Bhosale, U. (2021). 2021 STM Report: Global Research Trends and
Transformation in Open Access Publishing. Enago Academy.
Available online at: https://www.enago.com/academy/2021-stmreport-global-research-trends/ (accessed March 1, 2025).
5. Kataoka, Y., Banno, M., Tsujimoto, Y., Ariie, T., Taito, S., Suzuki,
T., et al. (2022). Retracted randomized controlled trials were cited and
not corrected in systematic reviews and clinical practice guidelines. J.
Clin. Epidemiol. 150, 90–97. doi: 10.1016/j.jclinepi.2022.06.015
6.Li, S, et al. Re-analysis of the current status of clinical trial registration
in China. Front. Med. 2025; Vol 11.
https://www.frontiersin.org/journals/medicine/articles/10.3389/fmed.2
024.1394803/full
7.Peralta G, Sánchez-Santiago B. Navigating the challenges of clinical
trial professionals in the healthcare sector. Front. Med 2024; Vol 11.
Uma avaliação do portfólio de ensaios clínicos de selinexor: estudo transversal
(An evaluation of selinexor’s clinical trial portfolio: a cross-sectional study)
A Elfar, A Tran, J Case, C Wayant, G Hughes, R McIntire, B Gardner, C Ladd, A Peña, J Tuia, A Haslam, V Prasad et al.
Ther Adv Hematol 2025;16:1–15 https://doi.org/10.1177/20406207251329174
https://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/20406207251329174 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: selinexor indicado para linfoma difuso e mieloma múltiplo;
selinexor não melhora a sobrevida global; alta toxicidade do
selinexor; perfil risco/benefício do selinexor
Objetivo. Avaliar os ensaios clínicos publicados com selinexor
para examinar seu perfil de risco/benefício, considerando taxas
de resposta, sobrevida e toxicidade.
Desenho: Estudo transversal.
Resumo
Contexto. O desenvolvimento de medicamentos oncológicos é
um processo complexo e oneroso. O selinexor obteve aprovação
acelerada como tratamento para o linfoma difuso de grandes
células B recidivante ou refratário e para o mieloma múltiplo.
Embora tenha mostrado resultados promissores inicialmente,
também apresentou toxicidades de alto grau durante os ensaios
clínicos. Por isso, é necessário realizar uma análise abrangente
dos estudos que avaliaram esse fármaco.
Métodos. Foi realizada uma busca em bases de dados para
identificar ensaios clínicos que utilizassem critérios de resposta
relacionados à administração de selinexor em adultos. Dois
pesquisadores coletaram, de forma cega e independente, as
características dos ensaios, a mediana da sobrevida livre de
progressão (SLP), a sobrevida global (SG), as taxas de resposta
objetiva (TRO) e os eventos adversos (EA) de grau 3 a 5.
Resultados. Dos 753 artigos identificados, 40 foram incluídos na
análise final.
16
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Nos ensaios que relataram dados de SLP com grupo controle,
a diferença mediana foi de 4,4 meses a favor do selinexor.
Entretanto, os estudos que informaram sobre SG mostraram
uma diferença mediana negativa de −2,4 meses em relação ao
controle.
Conclusão. O selinexor aumentou a SLP e melhorou a resposta
objetiva em comparação com o grupo controle,
indicando atividade farmacológica. No entanto, não houve
melhora na SG nem uma redução aceitável dos eventos adversos
graves em nenhuma indicação específica, sugerindo baixa
probabilidade pré-existente de benefício clínico.
Nossa análise risco/benefício fornece evidências relevantes sobre
os resultados desfavoráveis e a elevada toxicidadeassociada ao
selinexor. Portanto, recomenda-se maior rigor na avaliação de
novos ensaios clínicos com esse fármaco, levando em
consideração o conjunto de dados analisado.
Nas 53 medições de TRO, a mediana ponderada da taxa de
resposta objetiva foi de 36,4%, e a diferença mediana da TRO foi
de 4,8% a favor do selinexor.
Também foram documentados 4.153 eventos adversos de grau 3
a 5.
Amianto no talco, testes em prisioneiros: um relato sobre os perigosos experimentos da Johnson & Johnson
(Asbestos in talcum, testing on prisoners: An account of Johnson & Johnson’s dangerous practices)
Gardiner Harris
Scroll In, 11 de junnho de 2025
https://scroll.in/article/1082836/asbestos-in-talcum-testing-on-prisoners-an-account-of-johnson-johnsons-dangerous-practices
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: amianto em talco, asbesto em talco, experimentos da Johnson
& Johnson, Gardiner Harris, ensaios com prisioneiros
contaminadas com asbesto, incluindo os produtos Baby
Powder e Shower to Shower, da J&J.
Trecho do livro Os segredos sombrios da Johnson & Johnson
(The Dark Secrets of Johnson & Johnson), de Gardiner Harris.
Na mesma época, o NIOSH publicou análises de nove marcas
populares de talco para bebês usando microscopia eletrônica,
indicando possível contaminação por fibras de asbesto.
Durante anos, a FDA manteve reuniões informais com
fabricantes de talco para tratar do problema do asbesto
(amianto)nessa indústria. No entanto, à medida que a atenção
pública crescia, os funcionários da agência decidiram que
persuadir as empresas discretamente não era suficiente.
A FDA compartilhou os resultados de Lewin privadamente com
a J&J e outros fabricantes, sem divulgá-los publicamente.
Nashed, cientista da J&J que já havia visitado a FDA, respondeu
dizendo que eliminar totalmente o asbesto do talco
era impossível, e argumentou que pequenas quantidades não
seriam nocivas à saúde humana.
Em agosto de 1971, a agência convidou diversos fabricantes,
cientistas e representantes de outras agências governamentais
a Washington, D.C., para participar de um encontro formal. Entre
os convidados estavam representantes da Johnson & Johnson e
da Pfizer, funcionários da FDA, do Escritório de Minas,
do Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional
(NIOSH), do Serviço Geológico dos EUA, além de Langer e
alguns de seus colegas do Mount Sinai (Nota da SyF: um
renomado centro médico localizado em Nova York).
Não se sabe se Nashed acreditava realmente nisso — ele faleceu
em 1988 —, mas estudos realizados nos 12 anos anteriores já
haviam demonstrado que mesmo pequenas quantidades de
asbesto podiam causar doenças e morte.
A J&J contratou o Dr. Albert M. Kligman, professor de
dermatologia da Universidade da Pensilvânia, para investigar o
que aconteceria — em coelhos e em humanos — se
fossem injetadas amostras de talco e asbesto.
O objetivo declarado da reunião era “discutir em detalhe os
métodos analíticos para determinar a presença de pequenas
quantidades de material semelhante ao asbesto no talco,
especialmente nos talcos de grau cosmético”.
Kligman era, no mínimo, um pesquisador controverso. Durante
anos, realizou testes dolorosos com talco infantil da Johnson,
curativos, xampus e outros produtos farmacêuticos
em prisioneiros afro-americanos e crianças com deficiência
mental.
A tecnologia para medir concentrações de asbesto evoluía
rapidamente, e a FDA buscava estabelecer consenso sobre quais
equipamentos usar e como aplicá-los. Os reguladores também
esperavam chegar a um acordo sobre o que seria considerado
uma quantidade excessiva de asbesto.
Em 10 de dezembro de 1971, Kligman enviou uma carta
a Hildick-Smith descrevendo seus resultados: ao injetar amostras
de crisotila em coelhos, observou reação granulomatosa intensa
com necrose, resultando posteriormente na formação de cistos.
Nenhuma decisão firme foi tomada, mas a FDA concluiu que era
necessário compreender melhor a magnitude do problema.
Assim, em dezembro de 1971, a agência contratou o
professor Seymour Z. Lewin, da Universidade de Nova York,
para analisar o talco de consumo. Em setembro de 1972, Lewin
começou a compartilhar seus resultados: das 102 amostras de
produtos comerciais contendo talco, cerca de 40% estavam
Apesar desses achados, Kligman prosseguiu e injetou amostras
de crisotila em dez prisioneiros negros, na região lombar. Notou
que, entre dez e vinte dias, os locais das injeções
estavam bastante inflamados e, aos trinta dias, a irritação havia
diminuído. Não há registro sobre se os prisioneiros
posteriormente desenvolveram câncer.
17
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
consumidor, James R. Marshall, mencionava as
marcas Landers e Johnson & Johnson, afirmando ainda
que “praticamente todos os pós de talco continham asbesto”.
Em 2021, a J&J finalmente expressou arrependimento por
patrocinar tais experimentos, afirmando: “De forma alguma eles
refletem os valores ou práticas que seguimos hoje.”
A alegação de Kretchmer de que os talcos da J&J continham
até 25% de asbesto era incorreta — as quantidades eram muito
menores. Indignado, Nashed ligou para Robert M. Schaffner, da
FDA, afirmando que os relatórios da empresa “comprovavam a
ausência de asbesto” — o que era parcialmente verdadeiro, pois a
J&J havia omitido os dados sobre a tremolita.
A investigação da FDA continuou.
Um laboratório particular de Chicago analisou amostras de talco
infantil da J&J dos mesmos lotes utilizados por Lewin e
afirmou não encontrar crisotila, contrariando seus resultados. No
entanto, encontrou pequenas quantidades de tremolita — 0,5%
em um lote e 0,2–0,3% em outros. Quando a J&J enviou o
relatório do laboratório à FDA, as informações sobre a tremolita
haviam sido removidas. (“NÃO UTILIZAR ESTE
RELATÓRIO”, escreveu à mão alguém da J&J na capa do
documento original).
No dia seguinte, o Times publicou uma correção
intitulada “Alerta sobre talco classificado como falso”, citando
Schaffner e Langer, que confirmou que análises mais recentes
encontraram apenas traços de asbesto no talco da J&J. Schaffner
declarou que, de 40 amostras analisadas pela FDA, 39 continham
1% ou menos de asbesto, e concluiu:
Na carta de encaminhamento, a J&J afirmou que os
resultados “demonstravam claramente que as amostras analisadas
não continham amianto crisotila”.
“À luz dessa investigação, não concordamos com a advertência
sobre o talco.”
Em junho de 1972, Jerome Kretchmer, Administrador de
Proteção Ambiental da cidade de Nova York, declarou que, após
um ano de alertas, pouco havia sido feito para remover o asbesto
de produtos de uso infantil. Em coletiva de imprensa, citou
nomes.
Apesar disso, a controvérsia sobre a tremolita continuou
crescendo. A J&J adotou uma estratégia de desacreditar
cientistas e relatórios que revelassem a contaminação, enquanto
internamente debatia se essa postura era sustentável.
Segundo o New York Times, Kretchmer afirmou:
“A administração ambiental da cidade identificou duas marcas de
talco com altos níveis de fibra de asbesto, que podem causar
câncer de pulmão anos após a inalação do pó.”
A empresa contratou o Dr. Fred D. Pooley, professor do
Departamento de Exploração Mineral da Universidade de Cardiff
(País de Gales), e colegas para analisar o talco italiano usado nos
produtos vendidos no exterior. O estudo encontrou pequenas
quantidades de tremolita, entre outras impurezas.
Ele informou que duas marcas apresentavam entre 5% e 25% de
fibras de asbesto, mas não as identificou até concluir novas
análises. Posteriormente, uma carta de 8 de junho, enviada a um
Gardiner Harris publicou um livro sobre o tema: The Dark
Secrets of Johnson & Johnson. Penguin Random House.
O exercício é ótimo, mas não é um remédio contra o câncer (Exercise is Great but It’s Not a Cancer Drug)
J Mandrola
Sensible Medicine, 2 de junho de 2025
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: exercício melhora a evolução do câncer, ensaio
CHALLENGE, exercício reduz riscos do câncer de cólon, Ensaios
Clínicos Questionados
relataram associações entre atividade física e resultados
oncológicos, bem como de estudos pré-clínicos que sugeriram
(ainda que de forma fraca) que o exercício poderia reduzir o
crescimento tumoral, possivelmente por mecanismos metabólicos
ou imunológicos.
O ensaio CHALLENGE causou grande alvoroço nas redes
sociais por concluir que o exercício é uma terapia contra o
câncer. Mas o fato de você gostar de uma conclusão não é
motivo para deixar de pensar.
Os autores do estudo CHALLENGE decidiram avaliar os efeitos
de um programa de exercícios estruturado em pacientes com
câncer de cólon que haviam concluído o tratamento adjuvante
com quimioterapia. Os critérios de inclusão no ensaio eram: não
estar morrendo de câncer de cólon, ter completado a
quimioterapia e possuir capacidade funcional suficientemente
boa para realizar todos os exercícios.
O ensaio CHALLENGE [1] avaliou o impacto de um programa
estruturado de exercícios na evolução do câncer. O New England
Journal of Medicine publicou o estudo, mais de 100 meios de
comunicação o repercutiram e centenas o divulgaram nas redes
sociais.
Pouco mais de 900 pacientes foram randomizados para receber
recomendações gerais de saúde ou participar do programa
estruturado, que era intensivo. O programa incluía 17 “técnicas
baseadas em evidências” para induzir a mudança de
comportamento, entre elas sessões presenciais obrigatórias e
frequentes de apoio comportamental e sessões supervisionadas
Portanto, já se pode imaginar que os resultados foram positivos
— e, de fato, extremamente positivos. E quem, pergunto, não
adoraria a conclusão de que o exercício vence o câncer?
O ensaio: a ideia de estudar o impacto do exercício estruturado
na evolução do câncer surgiu de estudos observacionais que
18
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
de exercício. Ênfase especial foi dada ao caráter presencial e
obrigatório.
de um novo câncer de cólon primário, outro câncer primário ou
morte por qualquer causa.
Durante os seis meses seguintes, os pacientes continuaram com
atividades semelhantes, mas puderam participar de algumas
sessões por telefone. Nos dois anos finais, os participantes
compareceram a 24 sessões mensais obrigatórias de apoio
comportamental — presenciais ou remotas — combinadas com
uma sessão supervisionada de exercício. O suplemento do artigo
que descreve em detalhes o programa de exercícios estruturado
ocupa 50 páginas.
Os resultados foram surpreendentes.
Após uma mediana de acompanhamento de quase 8 anos, o risco
relativo de recidiva ou morte relacionada ao câncer de cólon foi,
em média, 28% menor no grupo do exercício estruturado em
comparação ao grupo que recebeu apenas educação em saúde.
Em outras palavras, neste ensaio, o exercício estruturado foi
associado a uma redução estatisticamente significativa no risco
de recidiva/morte em relação à educação em saúde (HR 0,72;
IC95% 0,55–0,94; p=0,02).
O desfecho primário foi a sobrevida livre de doença, algo
aparentemente simples, mas que na prática combina diversos
fatores: ausência de recorrência do câncer de cólon, surgimento
A sobrevida livre de doença em 5 anos foi de 80,3% no grupo de
exercício e de 73,9% no grupo de educação em saúde (diferença:
6,4 pontos percentuais; IC95%: 0,6 a 12,2).
Fonte: Traduzido pela equipe editorial de Salud y Fármacos a partir do gráfico original de: Courneya KS, et al. Structured Exercise after Adjuvant
Chemotherapy for Colon Cancer. N Engl J Med 2025;393:13–25. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2502760
Os fatores determinantes do desfecho primário incluíram: a
recorrência do câncer e a sobrevida global.
principalmente a problemas de validade interna, mas também
existem questões importantes de validade externa.
De fato, a redução do risco relativo de morte em 37% (HR: 0,63;
IC95%: 0,43–0,94) foi ainda maior do que a redução observada
no desfecho composto. Vale destacar que o exercício também
pareceu reduzir a recorrência do câncer de cólon (65 versus 81
pacientes), assim como a ocorrência de novos cânceres primários
(23 versus 42 pacientes).
Primeiro, antes de analisar os métodos, a redução de 37% na
mortalidade por todas as causas é inverossímil e rivaliza com
muitas terapias oncológicas de eficácia comprovada. Por
exemplo, é semelhante à redução da mortalidade obtida com o
trastuzumabe (Herceptin) no câncer de mama HER2+: um
achado revolucionário.
Os autores concluíram que esse programa estruturado de
exercícios, com duração de três anos, resultou em uma sobrevida
livre de doença significativamente mais longa, e os achados
foram consistentes com uma maior sobrevida global.
Segundo, se postulamos que o exercício traz um benefício tão
grande na mortalidade, deveríamos observar algum efeito
mensurável desse exercício. No entanto, o estudo CHALLENGE
não relatou quase nenhuma diferença entre os grupos nos
parâmetros típicos de atividade física. Não houve diferenças no
peso corporal, na circunferência da cintura ou no teste de
caminhada de seis minutos — apenas uma distância 30 metros
maior.
Comentários e avaliação
A primeira coisa que devo dizer é que adoro o exercício — tanto
na minha vida pessoal quanto como cardiologista. Também
valorizo o esforço dos autores em estudar o impacto do exercício
em um ensaio clínico randomizado rigoroso (ECR).
Terceiro, as curvas de Kaplan-Meier para sobrevida livre de
doença começam a se separar aos 12 meses, enquanto as curvas
de mortalidade só divergem após quatro anos. Não sou
oncologista, mas uma diferença tão pequena na dose de exercício
Embora eu desejasse que o relatado fosse verdadeiro, há pelo
menos sete razões para ser cauteloso. Elas se referem
19
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
(como demonstra a ausência de medidas objetivas) não é
suficiente para reduzir as recorrências de câncer tão rapidamente.
Esse achado sugere que a randomização foi subótima, o que não
surpreende, considerando que o ensaio, ambicioso e complexo,
levou 15 anos para completar o recrutamento dos participantes.
quanto para incentivar a prática de exercício. Isso aumenta a
probabilidade de viés de desempenho, como demonstram as
grandes diferenças nos questionários de qualidade de vida.
Sétimo, há sérios desafios quanto à validade externa ou à
generalização dos resultados do CHALLENGE. A dificuldade de
recrutar participantes (o que levou 15 anos) evidencia a
complexidade e a intensidade do programa comportamental e de
exercícios. Os autores não informam quantos pacientes foram
avaliados para, ao fim, recrutar esses 900. Suspeito que tenham
sido muitos. Além disso, os participantes eram relativamente
jovens (idade média de 61 anos), não obesos e com bom
desempenho funcional basal. Mesmo que aceitemos os resultados
como apresentados, eles só poderiam ser aplicados a uma fração
dos pacientes com câncer de cólon.
Quarto, a falta de adesão ao regime de exercícios torna a hipótese
ainda menos plausível. Após três anos, quase metade dos
pacientes designados ao grupo de exercício não completou o
protocolo na esteira, e um terço não concluiu o teste de
caminhada de seis minutos. Esses pacientes foram incluídos na
análise por intenção de tratar, o que tende a reduzir as diferenças
entre os grupos em termos de prática de exercício.
Quinto, originalmente os autores projetaram o ensaio para
detectar diferenças em três anos. Para alcançar poder estatístico
suficiente, seriam necessários 380 eventos. Devido ao
recrutamento lento e a uma taxa de eventos menor do que a
esperada, o prazo foi estendido para uma análise em cinco anos.
Mesmo assim, houve muito menos eventos do que o necessário
para o desfecho primário (224 versus 380). Isso reduz o poder
estatístico e aumenta a possibilidade de falsos positivos — algo
coerente com a inverossimilhança biológica. Além disso, as
curvas de Kaplan-Meier mostram que a maior parte da separação
ocorre após três anos. Um artigo mais sólido teria incluído os
resultados pré-especificados aos três anos, que talvez não fossem
significativos.
O custo e as implicações para o sistema de saúde de adotar esse
protocolo seriam enormes. Assim como os ensaios regulatórios
de medicamentos ou dispositivos exigem múltiplos estudos
positivos, deveríamos aplicar o mesmo critério ao
CHALLENGE.
Foi um grande esforço. A história é encantadora. Mas o fato de
gostarmos da conclusão não é motivo para deixar de pensar.
Referências
1. Courneya KS, Vardy JL, O'Callaghan CJ, Gill S, Friedenreich CM,
Wong RKS, Dhillon HM, Coyle V, Chua NS, Jonker DJ, Beale PJ,
Haider K, Tang PA, Bonaventura T, Wong R, Lim HJ, Burge ME,
Hubay S, Sanatani M, Campbell KL, Arthuso FZ, Turner J, Meyer
RM, Brundage M, O'Brien P, Tu D, Booth CM; CHALLENGE
Investigators. Structured Exercise after Adjuvant Chemotherapy for
Colon Cancer. N Engl J Med. 2025 Jul 3;393(1):13-25. doi:
10.1056/NEJMoa2502760. Epub 2025 Jun 1. PMID: 40450658.
Sexto, embora as cinco primeiras preocupações se refiram à
condução e ao desenho do estudo, há também o desafio inerente
aos ensaios intervencionistas: oferecer níveis diferentes de
atenção aos dois grupos. No CHALLENGE, o grupo de exercício
estruturado recebeu uma quantidade extraordinária de
acompanhamento, tanto para induzir mudanças comportamentais
Ensaios para ampliar as indicações de tratamentos, sem contribuir para o avanço do conhecimento
(Trials That Attempt to Expand Treatment Indications but Do Not Increase Knowledge)
J Mandrola
Sensible Medicine, 13 de abril de 2025
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: incentivos inadequados em cardiologia; promoção de
intervenções em saúde; Colégio Americano de Cardiologia
dapagliflozina, um inibidor de SGLT2, enquanto o outro grupo
recebeu o cuidado padrão (sem comprimido placebo).
Os pacientes submetidos à TAVI são idosos e apresentam
múltiplas condições que predispõem ao acúmulo de líquido, o
que exige tratamento com diuréticos.
Minha última coluna está em theheart.org | Medscape
Cardiology.
A primeira pergunta que faço ao analisar um estudo clínico é o
seu propósito. Ou seja: ele foi realizado para resolver uma
questão importante ou para promover uma intervenção?
Após um ano, 15% dos pacientes do grupo dapagliflozina
apresentaram um evento do desfecho primário — morte ou
insuficiência cardíaca (visita urgente ou hospitalização) —,
frente a 20,1% no grupo controle. Essa taxa, 28% menor, atingiu
significância estatística, resultando em uma vitória para a
dapagliflozina, um inibidor de SGLT2.
Dois estudos apresentados na recente reunião do Colégio
Americano de Cardiologia são excelentes exemplos dos
incentivos inadequados que cercam a ciência médica.
Nesta coluna [1], escrita para médicos, analiso os ensaios
DapaTAVI e STRIDE.
Os problemas que tive com o ensaio foram:
•
No estudo DapaTAVI [2], os pesquisadores randomizaram
pacientes que receberam um implante de válvula aórtica
transcateter (TAVI ou TAVR, em inglês). Um grupo recebeu
20
O grupo controle não recebeu comprimido placebo. Isso
significa que pacientes e médicos conheciam a alocação do
tratamento.
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
•
•
positivo e justificando sua publicação na influente revista
LANCET.
O fator determinante do desfecho primário positivo não foi a
morte, mas um evento de insuficiência cardíaca. Isso é um
problema, pois é o médico quem decide que um paciente
deve fazer uma “visita urgente” ou ser hospitalizado. O
conhecimento do tratamento ao qual o paciente foi alocado
pode enviesar a decisão. Por exemplo, uma opção para
pacientes com sintomas de insuficiência cardíaca é tomar em
casa um comprimido adicional de diurético oral, o que não
seria considerado evento nos desfechos.
Outro problema com o uso de “hospitalização por
insuficiência cardíaca” é que pacientes idosos podem ser
internados por diversos motivos. Os autores não informam o
total de hospitalizações, de modo que não podemos saber se
a redução de hospitalizações por insuficiência cardíaca reduz
a carga para o sistema de saúde.
O aumento no tempo de caminhada é semelhante ao do antigo
genérico cilostazol. Mesmo assim, mais de 35 veículos cobriram
o ensaio com manchetes positivas [4].
No entanto, o modesto aumento no tempo de exercício com
semaglutida poderia dever-se ao efeito placebo. Uma forma de
saber se houve quebra do cegamento em um ensaio seria um
simples teste de cegamento. Isso não foi realizado no STRIDE.
Conclusão:
A prática baseada em evidências se apoia em ensaios clínicos.
Elogio os pesquisadores que realizam ensaios.
Contudo, entristece-me que estudos desenhados para serem
positivos cheguem ao grande palco de um congresso e sejam
publicados em revistas médicas importantes.
Entretanto, minha principal crítica se concentra na ideia básica
do ensaio. Sabemos que os fármacos iSGLT2 são diuréticos
bastante potentes, o que significa que removem líquido do corpo
por meio dos rins.
As causas subjacentes a esse problema são complexas. Uma
delas é, sem dúvida, o interesse pelo lucro. O STRIDE é um bom
exemplo de ensaio desenhado pela indústria para ampliar a
indicação de seu fármaco. Na minha opinião, ele não chega a
esse patamar.
Na coluna, sustento que poderíamos administrar um iSGLT2 a
qualquer paciente após qualquer procedimento cardíaco e
provavelmente reduziríamos eventos de insuficiência cardíaca.
No estudo, havia sido feita uma TAVI, mas o fármaco poderia
ser administrado após uma ablação, a colocação de stent ou uma
cirurgia de bypass.
O governo espanhol financiou o DapaTAVI. Neste caso, o
problema subjacente consiste em realizar ensaios com resultados
positivos. Apostaria alto que o DapaTAVI seria positivo.
Quando, na realidade, ele traz apenas resultados moderadamente
positivos para um desfecho subjetivo e propenso a vieses, a
ciência médica não avança.
Portanto, o DapaTAVI não deveria ser utilizado para ampliar a
indicação dos iSGLT2. Ainda assim, mais de 40 veículos de
comunicação cobriram o ensaio, quase todos com manchetes
positivas.
Não tenho solução para esse problema, salvo aguçar minhas
habilidades de avaliação crítica para não me deixar enganar.
O ensaio STRIDE foi pior [3]. Tratou-se de um estudo
patrocinado e conduzido pelos produtores de semaglutida,
comparando semaglutida versus placebo em pacientes com
doença arterial periférica com claudicação (dor muscular ao
exercício por suprimento sanguíneo insuficiente).
Referências
1. Johan Mandrola. Little Learned From Trials That Are Positive by
Design - Medscape - April 10, 2025.
https://www.medscape.com/viewarticle/little-learned-trials-arepositive-design-2025a10008jc
2. Raposeiras-Roubin S, Amat-Santos IJ, Rossello X, González Ferreiro
R et al, DapaTAVI Investigators. Dapagliflozin in Patients
Undergoing Transcatheter Aortic-Valve Implantation. N Engl J Med.
2025 Apr 10;392(14):1396-1405. doi: 10.1056/NEJMoa2500366.
Epub 2025 Mar 29. PMID: 40162639.
3. Bonaca, Marc P et al. Semaglutide and walking capacity in people
with symptomatic peripheral artery disease and type 2 diabetes
(STRIDE): a phase 3b, double-blind, randomised, placebo-controlled
trial. The Lancet, Volume 405, Issue 10489, 1580 – 1593.
4. Michael Walter. A practice-changing trial’: Semaglutide linked to key
benefits for PAD patients with diabetes. Cardiovascular Business,
March 29, 2025.
https://cardiovascularbusiness.com/topics/clinical/pharmaceutics/sem
aglutide-peripheral-artery-disease-pad-diabetes
O desfecho primário foi o tempo de caminhada em esteira. Como
a maioria pode imaginar, o tempo de caminhada em esteira é
altamente suscetível a treinamento e motivação. Quem nunca
correu 400 metros a mais sob orientação? Quando se usa um
desfecho desse tipo, o cegamento deve ser adequado — é um
requisito obrigatório.
E aqui reside a falha fatal do estudo. Pacientes que tomam
semaglutida muito provavelmente sabem que a estão tomando:
perdem peso, sentem saciedade com facilidade e,
frequentemente, náuseas.
A diferença no tempo de caminhada foi modesta — nem mesmo
30 metros a mais em comparação com placebo. Ainda assim,
alcançou significância estatística, tornando o STRIDE um estudo
21
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Dúvidas sobre o ticagrelor: imprecisões surgem em estudos-chave do medicamento bilionário da AstraZeneca
(Ticagrelor doubts: inaccuracies uncovered in key studies for AstraZeneca’s billion dollar drug)
P Doshi
BMJ 2025;389:r1201 doi: 10.1136/bmj.r1201, 19 de Juno de 2025
https://www.bmj.com/content/389/bmj.r1201
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: ticagrelor, imprecisões em estudos, AstraZeneca, fármaco
bilionário, dúvidas sobre o ticagrelor
Além das críticas ao PLATO, Doshi analisou também os
ensaios ONSET/OFFSET e RESPOND, publicados na
revista Circulation, e documentou que:
Resumo
O que descobrimos
Neste ano, o medicamento cardiovascular
bilionário ticagrelor (Brilinta, Brilique) será comercializado
como genérico.
• Os critérios primários de avaliação foram relatados de
forma incorreta;
• A AstraZeneca não enviou todos os dados à FDA;
• Alguns centros de estudo podem não ter recebido treinamento
adequado [1].
Em dezembro passado, uma investigação do BMJ revelou sérios
problemas na integridade dos dados do emblemático
ensaio PLATO [1], que envolveu 18.000 pacientes [2],
levantando dúvidas sobre a suposta superioridade do fármaco em
relação a concorrentes mais baratos.
Doshi escreveu:
“Segundo os revisores da FDA, a agência concedeu aprovação
em 2011 mesmo sem evidências favoráveis, e agora minhas
investigações sobre PLATO, ONSET/OFFSET e RESPOND
sugerem que até os dados apresentados à FDA e publicados
no NEJM e Circulation não são confiáveis.”
Neste novo artigo, o BMJ ampliou a investigação, analisando
dois estudos fundamentais sobre função plaquetária que, segundo
a AstraZeneca, explicariam o sucesso do ticagrelor no tratamento
da síndrome coronariana aguda. No entanto, foram
encontradas falhas graves de informação, que colocam em
questão tanto a aprovação do ticagrelor quanto seu uso clínico
durante a última década.
Ele solicita, portanto, que a FDA reavalie a aprovação do
ticagrelor [1].
Problemas de integridade dos dados:
• RESPOND: Avaliava se o ticagrelor poderia tornar
responsivos os pacientes resistentes ao clopidogrel. Os
resultados originais não foram estatisticamente
significativos (p=0,157), mas foram publicados
em Circulationcomo significativos (p=0,005) após
uma mudança não declarada na definição do desfecho primário
[1].
• ONSET/OFFSET: Relatou que o ticagrelor produziu
uma inibição plaquetária mais rápida e intensa que o
clopidogrel. No entanto, vários pacientes foram excluídos do
análise, e os dados remanescentes foram apresentados
como população por intenção de tratar. Além disso, foram
utilizados dados transformados em uma análise não
publicada [1].
• Doshi teve acesso a algumas leituras originais e constatou
que mais de 60 das 282 medições não estavam nas bases
enviadas à FDA. Nessas leituras, os níveis de atividade
plaquetária eram significativamente mais altos do que os
relatados em Circulation.
• O Dr. Victor Serebruany (Universidade Johns Hopkins), crítico
do ticagrelor, declarou ao BMJ que a omissão dessas leituras
mostra que o medicamento pode causar fortes oscilações de
inibição plaquetária, aumentando o risco de trombose ou
sangramento. Segundo ele, “Se os médicos soubessem o que
ocorreu nesses ensaios, nunca teriam começado a usar
ticagrelor.” [1]
Principais achados:
• Os resultados do desfecho primário de ambos os ensaios
foram relatados incorretamente na revista Circulation;
• Mais de 60 das 282 leituras das máquinas de plaquetas usadas
nos estudos não constavam nas bases de dados enviadas à
FDA;
• Um pesquisador que participou ativamente do ensaio não foi
listado como autor, enquanto outro, citado como autor, afirmou
ao BMJ não ter participado;
• A maioria dos pesquisadores, incluindo o investigador
principal, recusou entrevistas ou não pôde ser localizada.
Referência
1. Doshi P. Doubts over landmark heart drug trial: ticagrelor PLATO
study. BMJ2024;387:q2550. doi:10.1136/bmj.q2550
https://www.bmj.com/content/387/bmj.q2550
2. Wallentin L, Becker RC, Budaj A, Cannon CP, Emanuelsson H, Held
C, Horrow J, Husted S, James S, Katus H, Mahaffey KW, Scirica
BM, Skene A, Steg PG, Storey RF, Harrington RA; PLATO
Investigators; Freij A, Thorsén M. Ticagrelor versus clopidogrel in
patients with acute coronary syndromes. N Engl J Med. 2009 Sep
10;361(11):1045-57. doi: 10.1056/NEJMoa0904327
Nota de Salud y Fármacos. Um comentário publicado
no Medscape [1] destaca que, após 15 anos de mercado, as
versões genéricas do antiplaquetário ticagrelor estão prestes a ser
lançadas. O medicamento foi promovido como mais rápido e
eficaz que seu concorrente mais acessível, o clopidogrel (Plavix),
tornando-se um dos maiores sucessos comerciais da AstraZeneca
e sendo incorporado rapidamente às diretrizes de cardiologia em
todo o mundo.
Falhas no ensaio PLATO e possível viés de cegamento
PLATO foi um ensaio global realizado em 43 países. Nos
Estados Unidos, os centros foram supervisionados
por contratantes independentes, e os pacientes tratados com
ticagrelor tiveram piores resultados: risco 27% maior de eventos
cardíacos graves em relação ao clopidogrel.
22
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Já em países europeus como Hungria e Polônia, supervisionados
diretamente pela AstraZeneca, os resultados favoreceram o
ticagrelor [2].
Ele alertou que pacientes tratados com ticagrelor submetidos
a intervenção coronariana percutânea precoce tiveram piores
resultados do que os tratados com clopidogrel. Suas advertências,
porém, foram ignoradas [2].
Um comitê independente avaliava mortes e infartos. Doshi
descobriu que 45 infartos foram adicionados ao grupo do
clopidogrel, enquanto nenhum foi adicionado ao grupo do
ticagrelor. Em 20 mortes, os avaliadores não chegaram a um
consenso, e 17 ocorreram no grupo clopidogrel; em 6 casos, a
classificação final foi alterada em favor do ticagrelor, sem
justificativa. Esse padrão unilateral de alterações levanta a
questão:
Em 2013, o medicamento foi alvo de investigação do
Departamento de Justiça dos EUA, a pedido de Serebruany. O
caso foi encerrado em 2014 sem medidas adicionais [1].
Por fim, uma revisão conduzida pelo Dr. Eric
Bates (Universidade de Michigan), coautor das diretrizes
americanas que recomendam o ticagrelor, concluiu que
“O consenso clínico e o apoio das diretrizes ao ticagrelor em
relação ao clopidogrel podem estar superestimados.”
“O ensaio foi realmente cego?”
Bates agora defende a revisão das diretrizes, especialmente
quanto à recomendação do ticagrelor [1].
Embora o comitê de adjudicação devesse desconhecer a alocação
dos pacientes, o viés a favor do ticagrelor sugere quebra do
cegamento [2].
Referências
1. Owens B. BMJ Investigation Finds More Concerns in Ticagrelor
Trials. Medscape. June 20, 2025.
https://www.medscape.com/viewarticle/investigation-bmj-raisesmore-concerns-about-ticagrelor-2025a1000gh3
2. Demasi, Maryanne. Part 1: BMJ Investigation reveals serious
Histórico e críticas adicionais
O ticagrelor enfrentou resistência desde o início. Seu primeiro
pedido de aprovação foi rejeitado pela FDA. O então diretor
médico, Dr. Thomas Marciniak, classificou a submissão da
AstraZeneca como:
flaws in trials of blockbuster anti-clotting drug The anticlotting drug ticagrelor was approved on flawed studies—and
remains widely used today despite evidence of scientific
misconduct and regulatory failure. Maryanne Demasi
Substack, 6 de julio de 2025
“Uma das piores que já vi.”
Comitês de Ética em Pesquisa
Orientação prática para compreender as nuances da distribuição de benefícios e o que isso significa para os comitês de ética
em pesquisa em saúde sul-africanos: Parte 1. (Practical guidance in understanding the nuance of benefit sharing and what this
means for South African health research ethics committees: Part 1.)
L Prinsen
South African Journal of Bioethics and Law, 202518(1), e2814. DOI:10.7196.
https://journals.co.za/doi/pdf/10.7196/SAJBL.2025.v18i1.2814 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: nuances da distribuição de benefícios, comitês de ética em
pesquisa, saúde na África do Sul
2.
Quando se realiza pesquisa em saúde, a distribuição de
benefícios é um tema complexo e polêmico que apresenta
desafios práticos.
3.
Intellectual Property Rights from Publicly Financed
Research and Development Act – IPRA),
A Lei dos Conhecimentos Indígenas (Indigenous Knowledge
Act – IKA),
A Lei Nacional de Gestão Ambiental: Biodiversidade
(National Environmental Management: Biodiversity Act –
NEMBA) e
A Lei Nacional de Saúde (National Health Act – NHA).
Este artigo analisa a terminologia e o papel das diferentes partes
interessadas em múltiplos níveis, trazendo perspectivas muito
importantes para os Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) sulafricanos. Explora a clareza terminológica necessária para definir
“benefício” e “distribuição de benefícios”, especialmente
segundo o marco conceitual sugerido pelo grupo DS-I Africa
Law.
4.
O artigo destaca deficiências significativas nas Diretrizes de
Saúde do Departamento Nacional de Saúde, pois, ao tratar da
distribuição de benefícios, carecem de especificidade, o que gera
confusão regulatória. Além disso, analisa a relevância de quatro
leis sul-africanas:
1. A Lei de Direitos de Propriedade Intelectual em Pesquisa e
Desenvolvimento com Financiamento Público (The
Em conclusão, este artigo recomenda a implementação da
terminologia e das distinções aqui apresentadas. O texto oferece
uma explicação básica que pode ajudar os CEPs a lidar com as
complexidades da distribuição de benefícios no contexto da
pesquisa sul-africana.
Cada uma dessas leis aborda a distribuição de benefícios em
diferentes contextos. Esses marcos legislativos são discutidos
para ajudar os CEPs a garantir a adoção de práticas éticas de
distribuição de benefícios e para esclarecer a legalidade e
aplicabilidade dessa distribuição.
23
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Alemanha. O comitê especializado de ética começa a funcionar (Specialized ethics committee begins work)
Agencia Reguladora Alemana (BfArM), Comunicado de prensa, 30 de junio de 2025
https://www.bfarm.de/SharedDocs/Pressemitteilungen/DE/2025/pm08-2025.html?nn=470400
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: comitê especializado de ética, proteção de participantes em
estudos, proteção de participantes em ensaios, Alemanha referência
em pesquisa clínica, acesso oportuno a novos fármacos
Pesquisa, Tecnologia e Espaço e as principais autoridades
sanitárias estaduais, nomeia os membros por um período de cinco
anos.
O Comitê de Ética Especializado para Procedimentos Especiais
entrará em funcionamento em 1º de julho. Isso representa um
marco importante para a Lei de Pesquisa Médica e para a
estratégia farmacêutica, que buscam fortalecer a pesquisa clínica
na Alemanha.
Em sua primeira reunião, a comissão elegeu a Dra. Ulrike
Artmeier-Brandt, anestesiologista, como presidente. Também
foram eleitos como suplentes:
• Prof. Dr. Wolfgang Berdel (Hematologia e Oncologia)
• Prof. Dr. sc. med. Ulrich Fetzner (Cirurgia)
• Prof. Dr. Uwe Fuhr (Farmacologia Clínica)
• Prof. Dr. med. Sebastian Harder (Farmacologia Clínica)
• Prof. Dr. Martin Hellmich (Biometria / Estatística / Desenho
Experimental)
• Prof. Dr. med. Martin Hildebrandt (Hematologia e Oncologia
Interna, Medicina Transfusional)
• Prof. Dr. rer. biol. hum. Dr. med. Mahir Karakas, MBA
(Medicina Interna / Cardiologia)
• Prof. Dr. phil. Dirk Lanzerath (Filosofia)
O Comitê de Ética Especializado complementa os comitês de
ética existentes, estabelecidos por legislação estadual, e será
responsável pela avaliação ética de ensaios clínicos específicos,
especialmente de procedimentos de grande complexidade. O
escritório desse comitê independente está localizado no Instituto
Federal de Medicamentos e Dispositivos Médicos (BfArM).
O objetivo do Comitê de Ética Especializado é garantir a
proteção dos participantes desses estudos, ao mesmo tempo que
agiliza os procedimentos e facilita o avanço científico. A partir
de 1º de julho de 2025, o comitê será responsável pelas seguintes
solicitações de aprovação de ensaios clínicos:
O trabalho da comissão é independente e voluntário. O órgão já
adotou um regulamento interno que estabelece, entre outros
pontos, os processos de tomada de decisão e a adesão à
independência e à confidencialidade. A comissão recebe apoio
organizacional de uma secretaria, localizada no BfArM.
Componente importante da Lei de Pesquisa Médica.
• Ensaios clínicos em que medicamentos novos são testados pela
primeira vez em humanos,
• Ensaios clínicos com medicamentos de terapia avançada,
• Ensaios clínicos que envolvem o Grupo de Resposta a
Emergências da Agência Europeia de Medicamentos (EMA),
• Ensaios clínicos que utilizam determinados tipos de protocolo
(“estudos complexos” realizados segundo um protocolo mestre,
por exemplo, estudos de plataforma, cesta ou guarda-chuva),
• Estudos de desempenho que utilizam um teste diagnóstico
complementar para o uso seguro e eficaz de um medicamento
complementar.
A criação do Comitê de Ética Especializado implementa um
elemento central da Lei de Pesquisa Médica. O objetivo da lei é
fortalecer a Alemanha como polo de pesquisa clínica, reduzir a
burocracia e agilizar os procedimentos, mantendo, ao mesmo
tempo, os mais altos padrões éticos e científicos.
O comitê colabora estreitamente com outros comitês e
instituições de ética. Isso não apenas melhora a qualidade da
avaliação ética, mas também contribui para garantir que as
terapias inovadoras cheguem aos pacientes com maior rapidez.
Interdisciplinar e independente
A comissão é interdisciplinar: seus 98 membros atuais trazem
experiência médica, jurídica, ética e estatística. Também há
representação de pessoas não especializadas. O Ministério
Federal da Saúde, em consulta com o Ministério Federal de
Para mais informações sobre a Comissão, visite:
www.bfarm.de/sekbv
Políticas, Regulação, Registro e Divulgação de Resultados
CONSORT 2025: explicação e detalhamento: diretriz atualizada para a publicação de ensaios clínicos randomizados
(CONSORT 2025 explanation and elaboration: updated guideline for reporting randomised trials)
S Hopewell, AW Chan, GS Collins, et al.
BMJ. 2025;389:e081124. doi: 10.1136/bmj-2024-081124. PMID: 40228832; PMCID: PMC11995452.
https://www.bmj.com/content/389/bmj-2024-081124 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: relatórios de ensaios clínicos randomizados, CONSORT 2025,
qualidade dos ensaios randomizados, qualidade dos ensaios clínicos
randomizados
os resultados forem relatados de forma completa e precisa. Sem
uma comunicação transparente dos métodos e resultados, os
leitores não poderão avaliar plenamente a confiabilidade e a
validade das conclusões do estudo.
Resumo
A avaliação crítica da qualidade dos ensaios clínicos
randomizados só é possível se o desenho, a condução, a análise e
24
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
A declaração CONSORT (Consolidated Standards of Reporting
Trials) tem como objetivo melhorar a qualidade da publicação e
fornece um conjunto mínimo de itens que devem ser incluídos
em um relatório de ensaio clínico randomizado. O CONSORT
foi publicado pela primeira vez em 1996 e atualizado em 2001 e
2010.
metodológicos recentes e incorporar o feedback dos usuários
finais, garantindo que continue adequada aos seus propósitos.
Neste documento, apresentamos a versão atualizada do
CONSORT — explicação e detalhamento — que foi amplamente
revisada e descreve a fundamentação científica e o raciocínio por
trás de cada item da lista de verificação do CONSORT 2025,
além de oferecer exemplos publicados de boas práticas de relato.
O CONSORT é composto por uma lista de verificação com itens
essenciais que devem constar nos relatórios de ensaios clínicos
randomizados e por um diagrama que documenta o fluxo de
participantes ao longo do estudo. A declaração CONSORT foi
atualizada (CONSORT 2025) para refletir os avanços
O objetivo é aprimorar o uso, a compreensão e a disseminação do
CONSORT 2025, além de orientar autores sobre como melhorar
a comunicação de seus ensaios e garantir que os relatórios sejam
completos e transparentes.
Declaração SPIRIT 2025: Diretriz atualizada para protocolos de ensaios clínicos randomizados
(SPIRIT 2025 statement: Updated guideline for protocols of randomised trials)
AW Chan, I Boutron, S Hopewell, D Moher, et al.
PLoS Med. 2025;22(4):e1004589. DOI: 10.1371
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40294521/ (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: ensaios clínicos randomizados, Declaração SPIRIT 2025,
protocolos padrão, recomendações SPIRIT, Recomendações para
Ensaios de Intervenção
consenso. O processo resultou na adição de dois novos itens ao
protocolo, na revisão de cinco itens, na exclusão/fusão de cinco
itens e na integração de itens-chave de outras diretrizes de relato
relevantes. As mudanças notáveis incluem uma nova seção sobre
ciência aberta, ênfase adicional na avaliação de danos e na
descrição das intervenções e comparadores, e um novo item
sobre como pacientes e o público serão envolvidos no desenho,
na condução e na publicação dos resultados do ensaio. A versão
atualizada da declaração SPIRIT 2025 consiste em uma lista de
verificação baseada em evidências com 34 itens mínimos a serem
abordados em um protocolo de ensaio, acompanhada de um
diagrama que ilustra o cronograma de inclusão, intervenções e
avaliações dos participantes. Para facilitar a implementação,
também foi desenvolvida uma versão expandida da lista SPIRIT
2025 e um documento complementar de explicação e
detalhamento.
Resumo
Importância: O protocolo de um ensaio clínico randomizado é a
base para o planejamento, a condução, a publicação e a revisão
externa do estudo. No entanto, os protocolos variam quanto à sua
completude e frequentemente não abordam elementos-chave do
desenho e da execução. A declaração SPIRIT (Standard Protocol
Items: Recommendations for Interventional Trials) foi publicada
pela primeira vez em 2013 como um guia para melhorar a
completude dos protocolos de ensaios clínicos. Atualizações
periódicas que incorporem as evidências mais recentes e as
melhores práticas são necessárias para garantir que a orientação
permaneça relevante para os usuários.
Objetivo: Atualizar sistematicamente as recomendações SPIRIT
para os itens mínimos que devem ser abordados no protocolo de
um ensaio clínico randomizado.
Conclusões e relevância: A ampla adoção e adesão à versão
atualizada da declaração SPIRIT 2025 têm o potencial de
aprimorar a transparência e a completude dos protocolos de
ensaios clínicos, em benefício de pesquisadores, participantes,
pacientes, financiadores, comitês de ética em pesquisa,
periódicos, registros de ensaios, formuladores de políticas,
órgãos reguladores e demais avaliadores.
Desenho: Foi realizada uma revisão de escopo e desenvolvido
um banco de dados específico do projeto, reunindo evidências
empíricas e teóricas para gerar uma lista de possíveis alterações à
lista de verificação SPIRIT 2013. Essa lista foi enriquecida com
recomendações de autores principais de extensões existentes do
SPIRIT/CONSORT (Consolidated Standards of Reporting
Trials) — como Harms, Outcomes e Non-pharmacological
Treatment — e de outras diretrizes de relato (TIDieR). As
possíveis modificações foram avaliadas em uma pesquisa Delphi
de três rodadas, seguida por uma reunião de consenso.
Achados: No total, 317 pessoas participaram do processo Delphi
de consenso e 30 especialistas compareceram à reunião de
Referência
1. Hróbjartsson A, Boutron I, Hopewell S, Moher D, Schulz K F,
Collins G S et al. SPIRIT 2025 explanation and elaboration: updated
guideline for protocols of randomised trials. BMJ 2025; 389 :e081660
doi:10.1136/bmj-2024-081660
https://www.bmj.com/content/389/bmj-2024-081660.long (de livre
acesso em inglês)
25
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Relato de resultados resumidos em registros de ensaios clínicos: diretriz atualizada da OMS
(Reporting summary results in clinical trial registries: updated guidance from WHO)
An-Wen Chan et al.
The Lancet Global Health, Vol 13 (4), e759 - e768
https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(24)00514-X/fulltext
Traduzido por Salud y Fármacos, Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: publicação de resumos de resultados, ensaios clínicos,
Diretriz OMS sobre resultados de ensaios
atual das políticas de registro e apresenta a nova diretriz da OMS
para a divulgação de resultados nesses registros. A diretriz da
OMS de 2025 foi elaborada após consultas com partes
interessadas, incluindo pesquisadores, pacientes, patrocinadores,
financiadores, órgãos reguladores, editores de periódicos,
administradores de registros e o público.
Resumo
A importância do registro público de ensaios clínicos e da
divulgação de seus resultados em registros é amplamente
reconhecida. Embora tenham sido feitos avanços significativos
no registro de ensaios antes do recrutamento de participantes, a
disponibilidade de resultados nesses registros ainda é incomum,
apesar da ampliação das exigências legais e dos requisitos de
financiadores — o que resulta em uma base de evidências
incompleta e em desperdício evitável de recursos, especialmente
no caso de ensaios não publicados.
A diretriz define oito itens mínimos essenciais para compreender
e interpretar os resultados resumidos de todos os ensaios clínicos.
A implementação da diretriz da OMS pelos registros, sua ampla
adoção por pesquisadores e patrocinadores, e o endosso por
financiadores, reguladores, legisladores, comitês de ética em
pesquisa, organizações de pacientes e periódicos podem
contribuir para ampliar a relevância dos ensaios clínicos para o
conhecimento científico, o cuidado com os pacientes e as
políticas de saúde.
Este artigo discute a justificativa para o relato de resultados
resumidos em registros de ensaios clínicos, revisa o panorama
Nova diretriz sobre a inclusão de pessoas grávidas e em período de amamentação em ensaios clínicos
(New guideline on inclusion of pregnant and breastfeeding individuals in clinical trials)
EMA, 4 de junio de 2025
https://www.ema.europa.eu/en/news/new-guideline-inclusion-pregnant-breastfeeding-individuals-clinical-trials
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: pessoas grávidas, pessoas em período de amamentação,
diretriz inclusiva da EMA para grávidas, mulheres em
amamentação
a segurança das participantes em ensaios clínicos, bem como de
seus fetos e bebês.
Atualmente, costuma-se excluir pessoas grávidas e em período
de amamentação dos ensaios clínicos, e aquelas que engravidam
enquanto participam de um ensaio são, frequentemente,
excluídas do estudo. Menos de 0,4% de todos os ensaios clínicos
atualmente submetidos na UE incluem grávidas, e essa cifra se
reduz a 0,1% no caso de mulheres em período de amamentação,
segundo dados do Sistema de Informação de Ensaios Clínicos
(CTIS).
As recomendações facilitarão o acesso a melhores informações
sobre os benefícios e os riscos dos medicamentos nessa
população.
A EMA publicou uma nova diretriz [1], submetida a consulta
pública, que oferece recomendações sobre como incluir ou reter
pessoas grávidas e em período de amamentação em ensaios
clínicos. O objetivo é garantir que os desenvolvedores de
medicamentos gerem dados clínicos robustos nessas populações,
para que essas pessoas e os profissionais de saúde possam tomar
decisões informadas e baseadas em evidências ao utilizar
medicamentos.
Consequentemente, as bulas dos medicamentos costumam
carecer de detalhes sobre os benefícios e riscos de um
medicamento durante a gravidez e a amamentação, o que obriga
pacientes e profissionais de saúde a tomar decisões terapêuticas
sem contar com essa informação essencial. Isso pode levar a
decisões terapêuticas inadequadas e a possíveis danos. Isso
ocorre enquanto a grande maioria das grávidas toma
medicamentos, por exemplo, devido a doenças crônicas,
infecções ou complicações da gravidez. A situação é semelhante
entre as mulheres em período de amamentação.
Essa diretriz, desenvolvida conjuntamente por reguladores
globais e desenvolvedores de medicamentos, por meio do
Conselho Internacional para Harmonização de Requisitos
Técnicos para Registro de Produtos Farmacêuticos de Uso
Humano (ICH), representa uma mudança de paradigma no
desenvolvimento de medicamentos para gravidez e
amamentação.
A diretriz descreve os princípios científicos e regulatórios, assim
como as considerações éticas, para a inclusão de grávidas e
mulheres em período de amamentação em ensaios clínicos, tanto
antes quanto depois de receber a autorização de comercialização.
Incentiva o planejamento proativo e a consulta precoce dos
desenvolvedores de medicamentos com as autoridades
reguladoras, para garantir a segurança e a eficácia dos
tratamentos durante a gravidez e a amamentação.
Destaca que, em princípio, deve-se considerar a inclusão de
pessoas grávidas e em período de amamentação em ensaios
clínicos com todos os medicamentos que possam ser utilizados
por pessoas com potencial de engravidar. Estabelece os
princípios e as condições que devem ser cumpridas para garantir
26
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Referência
1. EMA. ICH E21 Guideline on inclusion of pregnant and breastfeeding
individuals in clinical trials – Scientific guideline.
https://www.ema.europa.eu/en/ich-e21-guideline-inclusion-pregnantbreastfeeding-individuals-clinical-trials-scientific-guideline
2. https://www.ema.europa.eu/en/documents/template-form/submissioncomments-ich-guidelines_en.xlsx
A diretriz está aberta a consulta até 15 de setembro de 2025. Para
enviar comentários, deve-se usar este modelo [2] e encaminhá-lo
para ich@ema.europa.eu.
A EMA atualiza a diretriz para a publicação de ensaios clínicos com medicamentos de uso humano
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: anonimización de los informes clínicos, medicamentos para
uso humano, informar los resultados de los ensayos clínicos
Fonte Original
1. Nick Paul Taylor. EMA updates guidance on publishing clinical data
on medicines for human use. Regulatory Focus, 22 de mayo de
2025. https://www.raps.org/news-and-articles/newsarticles/2025/5/euro-roundup-mhra-seeks-feedback-on-using-external
A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) publicou a versão
1.5 de sua diretriz para a divulgação de dados clínicos de
medicamentos de uso humano, informa o Regulatory Focus [1].
Referências
2. EMA. External guidance on the implementation of the European
Medicines Agency Policy 0070 on the publication of clinical data for
medicinal products for human use. EMA, 14 de mayo de 2025
https://www.ema.europa.eu/en/documents/regulatory-proceduralguideline/external-guidance-implementation-european-medicinesagency-policy-publication-clinical-data-medicinal-products-humanuse-version-15_en.pdf
3. EMA. Summary of changes to the ‘External guidance on the
implementation of the European Medicines Agency policy on the
publication of clinical data for medicinal products for human use’.
EMA, 14 e mayo de 2025
https://www.ema.europa.eu/en/documents/regulatory-proceduralguideline/summary-changes-external-guidance-implementationeuropean-medicines-agency-policy-publication-clinical-datamedicinal-products-human-use-version-15_en.pdf
A primeira política da EMA sobre a publicação de relatórios de
ensaios clínicos data de 2015, e a diretriz destinada a facilitar a
adesão da indústria a essas normas foi publicada em 2016. Esses
documentos vêm sendo atualizados periodicamente, e em maio
de 2025 foi publicada uma nova versão que esclarece pontos,
reestrutura seções e incorpora mudanças para refletir os
requisitos atuais [2].
A agência resumiu as alterações em um documento separado [3].
A EMA atualizou um capítulo sobre a anonimização dos
relatórios clínicos, acrescentou referências à legislação vigente
sobre proteção de dados e esclareceu que “a avaliação de riscos é
a metodologia preferencial para alcançar a anonimização,
preservando ao mesmo tempo a utilidade dos dados”. A EMA
também esclareceu que qualquer texto escrito à mão é
considerado dado pessoal e não deve ser divulgado.
ICH E20 – Desenhos adaptativos para ensaios clínicos – Diretriz científica
(ICH E20 adaptive designs for clinical trials - Scientific guideline)
EMA, 30 de junio de 2025
https://www.ema.europa.eu/en/ich-e20-adaptive-designs-clinical-trials-scientific-guideline
Traduzido por Salud y Fármacos, Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: desenho de ensaios clínicos, desenho adaptativo de ensaios
clínicos, modificações em ensaios clínicos
planejadas em um ou mais aspectos do estudo, a partir dos dados
que vão sendo acumulados durante a condução de um ensaio
clínico. A proposta inicial foi apresentada em novembro de 2019.
Este documento oferece orientações úteis para ensaios clínicos
confirmatórios que planejam utilizar um desenho adaptativo, no
contexto de seu programa geral de desenvolvimento, permitindo
a realização de modificações predefinidas no desenho do estudo
com base nos resultados de uma análise interina do ensaio em
andamento.
Segundo os defensores desse tipo de desenho, os estudos
adaptativos permitem reduzir a exposição de pacientes a
tratamentos inseguros ou ineficazes, economizar recursos do
ensaio e acelerar o processo de desenvolvimento, garantindo ao
mesmo tempo que os resultados possam oferecer evidências
confiáveis para a tomada de decisões regulatórias.
Além disso, a diretriz analisa as oportunidades de uso da
metodologia bayesiana. São solicitados comentários sobre outros
exemplos em que a metodologia bayesiana possa ser aplicada,
para que possam ser discutidos no contexto clínico em que será
utilizada.
Entre os desafios estão a complexidade e as incertezas associadas
ao seu uso, já que planejar e avaliar um ensaio com desenho
adaptativo pode ser mais trabalhoso e exigir mais tempo do que
um estudo sem essas características.
Comentário de Salud y Fármacos. Um comentário sobre essa
diretriz publicado no Regulatory Focus [1] acrescenta que o
desenho adaptativo é aquele que permite realizar modificações
A documentação que sustenta o estudo deve incluir a justificativa
do desenho proposto, uma discussão de suas vantagens e
27
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
limitações em comparação com outras estratégias e uma
descrição das adaptações previstas.
A diretriz enfatiza que os patrocinadores devem interagir com as
agências regulatórias durante a fase de planejamento para discutir
os possíveis efeitos das adaptações sobre a condução do ensaio, o
tipo de participantes a serem incluídos e a forma como os
resultados serão interpretados ao final do estudo.
As informações apresentadas ao final do ensaio clínico devem
detalhar como o desenho adaptativo foi implementado, incluindo
o número e o momento das análises interinas, bem como uma
avaliação de diversos aspectos da condução do estudo (como
características basais, taxa de inclusão, adesão e retenção), e se
esses fatores variaram de forma significativa antes e depois da
análise interina.
A diretriz completa (em inglês) pode ser consultada no link
indicado no cabeçalho.
Fonte original:
1. Eglovitch. ICH releases E20 guideline to assist sponsors in designing
adaptive clinical trials. Regulatory News. Jun 27, 2025.
https://www.raps.org/news-and-articles/news-articles/2025/6/ichreleases-e20-guideline-to-assist-sponsors-in-d
Os patrocinadores também devem fornecer os registros das
deliberações do comitê independente de monitoramento de
dados, especialmente aquelas relacionadas a decisões de
adaptação do protocolo.
A maioria dos patrocinadores cumpre os requisitos pós-comercialização
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: requisitos pós-comercialização (RPC), compromissos póscomercialização (CPC), patrocinadores de ensaios clínicos
No ano fiscal de 2023, foram apresentadas 759 solicitações de
comercialização de medicamentos (NDA) e de produtos
biológicos (BLA), das quais 549 eram NDA. Entre essas, 82%
dos RPC/CPC para medicamentos foram apresentados dentro do
prazo, assim como 70% dos 210 RPC/CPC para BLA [2].
De acordo com o último relatório anual da FDA [1], durante o
ano fiscal de 2023, a maioria dos fabricantes de medicamentos e
produtos biológicos cumpriu seus requisitos pós-comercialização
(RPC) e compromissos pós-comercialização (CPC).
A FDA também informou que 70% dos RPC abertos estavam
sendo conduzidos conforme o previsto, enquanto o restante não.
No caso dos CPC, 78% avançaram conforme o planejado,
enquanto 22% apresentaram atrasos [2].
A FDA exige que os patrocinadores realizem estudos póscomercialização (RPC) quando o medicamento apresenta um
risco grave ou quando o produto não está devidamente rotulado
para uso pediátrico, conforme determina a Lei de Equidade em
Pesquisa Pediátrica (LEPP). A agência também pode exigir um
RPC para verificar o efeito ou os benefícios clínicos de
medicamentos aprovados por meio de aprovação acelerada, bem
como nos casos em que a aprovação se baseia em dados de
eficácia em animais, devido a preocupações éticas ou à
impossibilidade de realizar ensaios de eficácia em humanos [2].
Dos 1.098 RPC que estavam abertos no ano fiscal de 2023, 41%
estavam relacionados a estudos de segurança, 23% a estudos
exigidos pela LEPP, 5% a estudos de produtos que haviam
recebido aprovação acelerada e 1% a produtos aprovados com
base em estudos de eficácia em animais [2].
Em geral, cerca de 295 RPC são estabelecidos a cada ano, e a
maioria é concluída, embora aproximadamente um quinto seja
dispensado [2].
Um CPC é um estudo ou ensaio clínico pós-comercialização ao
qual o solicitante se compromete formalmente por escrito, mas
que não é exigido por lei ou regulamento [2].
Referência
1. FDA. Report on the Performance of Drugs and Biologics Firms in
Conducting Postmarketing Requirements and Commitments. Fiscal
Year 2023 https://www.fda.gov/media/186735/download?attachment
O relatório da FDA [1] concluiu que a maioria dos RPC e CPC
foi cumprida ou está progredindo conforme o planejado.
Os RPC e CPC são classificados como abertos ou encerrados e,
adicionalmente, como dentro ou fora do prazo:
•
•
Fonte Original
1. Joanne S. Eglovitch. FDA: Majority of applicants complied with
postmarketing requirements, commitments. Regulatory News, 2 de
junio de 2025 https://www.raps.org/news-and-articles/newsarticles/2025/6/fda-majority-of-applicants-complied-with-postmarke
Os RPC e CPC abertos são subdivididos em: pendentes, em
andamento, atrasados, apresentados ou finalizados.
Os RPC e CPC encerrados são classificados como:
cumpridos ou dispensados.
28
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
FDA suspende novos ensaios clínicos que enviavam células de norte-americanos a laboratórios estrangeiros em países hostis
para engenharia genética
(FDA Halts New Clinical Trials That Export Americans’ Cells to Foreign Labs in Hostile Countries for Genetic Engineering)
Declaración de la FDA, 18 de junio de 2025
https://www.nih.gov/about-nih/nih-director/statements/fda-halts-new-clinical-trials-export-americans-cells-foreign-labs-hostilecountries-genetic-engineering
Traduzido por Salud y Fármacos, Boletín Fármacos: Agencias Reguladoras 2025; 28 (3)
confiança do público”, afirmou Bhattacharya. “Essa autorização
excepcional criou um perigoso ponto cego na segurança de
nossas pesquisas, colocando em risco a privacidade e a confiança
dos participantes norte-americanos. Estamos avaliando a
dimensão desse problema para garantir que os NIH não estejam
financiando ensaios clínicos que comprometam a integridade dos
dados, o consentimento dos pacientes ou a segurança nacional.”
Tags: engenharia genética; ensaios clínicos suspensos pela FDA;
suspensão do envio de células de norte-americanos; materiais
biológicos em ensaios clínicos
“À luz das ações da FDA e de novas informações sobre as
políticas questionáveis da Administração Biden, os NIH estão
revisando ativamente todo o seu portfólio de pesquisa para
determinar se algum ensaio clínico financiado com recursos
federais utilizou a isenção emitida sob essa Administração, que
permitiu o envio de materiais biológicos de norte-americanos ao
exterior para modificação genética, em particular para entidades
que operam em países considerados preocupantes”, declarou o
diretor dos NIH, Dr. Jay Bhattacharya.
Sobre os Institutos Nacionais de Saúde (NIH)
Os NIH (a agência nacional de pesquisa médica dos Estados
Unidos) são compostos por 27 institutos e centros e fazem parte
do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS). São a
principal agência federal responsável por realizar e apoiar
pesquisas médicas básicas, clínicas e translacionais, bem como
por estudar as causas, tratamentos e curas de doenças comuns e
raras. Para obter mais informações sobre os NIH e seus
programas, visite www.nih.gov
“Nosso objetivo é proteger os dados biológicos sensíveis dos
norte-americanos, ao mesmo tempo em que continuamos
apoiando a inovação que salva vidas de forma segura e digna da
Recrutamento, Consentimento Informado e Perspectivas dos Pacientes
As relações na pesquisa: perspectivas dos participantes sobre o consentimento para biobancos
(The research relationship: participant perspectives on consent in biobanking).
R Thompson, K Lyle, G Samuel, et al.
BMC Med Ethics 26, 47 (2025). https://doi.org/10.1186/s12910-025-01199-0
https://link.springer.com/article/10.1186/s12910-025-01199-0 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: desafios na governança de biobancos, análise de dados
populacionais, estudo de caso Biobanco do Reino Unido
Métodos
Realizamos grupos focais com participantes do Biobanco do
Reino Unido, utilizando exercícios individuais e coletivos para
explorar suas opiniões sobre o consentimento e sobre os
diferentes tipos de pesquisa que poderiam ser realizados com
suas amostras e dados.
Resumo
Antecedentes
Este artigo examina os desafios associados à governança de
biobancos de grande escala. À medida que a coleta e a análise de
dados em nível populacional são cada vez mais consideradas um
caminho para novas compreensões sobre saúde e doença, os
biobancos em larga escala tornam-se elementos essenciais da
infraestrutura de pesquisa. No entanto, sua natureza longitudinal
apresenta desafios de governança, especialmente em relação ao
consentimento. Normalmente, os participantes concordam com
atividades específicas no momento do recrutamento, mas as
tecnologias em constante evolução dificultam antecipar futuras
aplicações da pesquisa nesse momento. Utilizando um estudo de
caso do Biobanco do Reino Unido, demonstramos como tentar
conciliar novas atividades de pesquisa com consentimentos
antigos pode levar à negligência de questões éticas críticas —
particularmente no que se refere à forma como a atividade
proposta se alinha à compreensão e às expectativas dos
participantes em relação à pesquisa conduzida por biobancos.
Resultados
Nossas descobertas mostram que os participantes atribuem ao
biobanco a responsabilidade pelas decisões relacionadas à
pesquisa, em vez de buscar exercer controle por meio do
consentimento. Eles percebem o consentimento não como um
acordo único, mas como o “ato inicial” de uma relação de
pesquisa contínua com o biobanco, que pode ser mantida por
meio da comunicação.
Conclusões
Concentrar-se na relação contínua de pesquisa — e nas práticas
que a sustentam — é mais importante do que a redação
específica dos formulários de consentimento assinados durante o
recrutamento. Argumentamos que essa abordagem será mais
eficaz para atender às expectativas dos participantes, além de
promover uma pesquisa ética.
29
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Lacuna entre a pesquisa e o direito dos pacientes à informação completa e oportuna
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
O acesso a informações genéticas relevantes pode significar a
diferença entre prevenir uma doença ou enfrentá-la em seu
estágio mais agressivo. Na Colômbia, o caso de uma mulher que
descobriu tarde demais ser portadora de uma mutação BRCA1
revela as falhas ainda existentes na comunicação entre os ensaios
clínicos e a atenção médica. O que poderia ter sido um alerta
preventivo acabou se transformando em um diagnóstico de
câncer metastático.
que a pesquisa considerou apenas um dado adicional para seus
objetivos, para ela representava a oportunidade de se antecipar à
doença.
O caso também interpela o sistema científico internacional. O
estudo do qual ela participou foi publicado em uma das revistas
mais prestigiadas do mundo, ampliando a reputação de seus
pesquisadores. No entanto, as voluntárias latino-americanas que
contribuíram com suas amostras ficaram à margem dos
benefícios práticos do conhecimento gerado.
A participante havia sido incluída, em 2016, em um estudo de
análise genética organizado por uma clínica privada em Bogotá.
Segundo as orientações iniciais, caso fosse detectado algum
achado relevante, a participante seria contatada. No entanto, isso
não aconteceu. O resultado — um relatório com advertência clara
sobre uma mutação patogênica — permaneceu sem comunicação
efetiva durante anos, até que a própria paciente o recuperou
posteriormente, quando já convivia com a doença.
A paradoxa é clara: enquanto os resultados circularam na esfera
acadêmica global, a mulher que forneceu suas informações
genéticas se sentiu tratada como uma fonte anônima de dados —
e não como uma pessoa com direitos e com riscos genéticos
identificados que poderiam ter salvado sua vida e sua saúde se
tivessem sido tratados de maneira correta e oportuna.
A paciente resume com contundência: “Os avanços da ciência
também deveriam se traduzir em benefícios para quem participa,
e não apenas em medalhas para os pesquisadores.”
A situação levanta questões críticas de fundo: qual é a
responsabilidade de uma instituição de pesquisa diante de
resultados que têm implicações médicas diretas e consequências
graves caso não sejam comunicados e tratados em tempo hábil?
Enquanto a clínica invoca cláusulas do consentimento informado
para sustentar que seu dever era limitado, a paciente questiona a
ausência de acompanhamento real e a violação de seu direito de
conhecer informações determinantes para sua saúde e sua vida. O
Fonte Original:
Palacios C. La Country me usó como conejillo. El Tiempo, 29 de agosto
de 2025. https://www.eltiempo.com/opinion/columnistas/la-country-meuso-como-conejillo-3485283
Riscos e benefícios de envolver jovens que vivem com HIV na pesquisa: perspectivas de jovens quenianos, cuidadores e
especialistas no tema. (Risks and benefits of engaging youth living with HIV in research: perspectives from Kenyan Youth,
caregivers, and subject matter experts)
Gillette E, Nyandiko W, Chory A, et al.
BMC Med Ethics 26, 63 (2025). https://doi.org/10.1186/s12910-025-01225-1
https://link.springer.com/article/10.1186/s12910-025-01225-1 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: pacientes HIV positivos, pesquisa qualitativa com jovens
vivendo com HIV, proteção de jovens com HIV em pesquisa
pesquisas, utilizando entrevistas semiestruturadas com jovens
que vivem com HIV e já participaram de estudos, seus
cuidadores, jovens sem experiência prévia em pesquisa e outros
especialistas. As entrevistas foram conduzidas nos centros de
cuidado e pesquisa do programa AMPATH, no oeste do Quênia.
As transcrições foram analisadas tematicamente, e temas
emergentes foram derivados para caracterizar as perspectivas de
cada grupo sobre os riscos e benefícios de envolver JVS em
pesquisas.
Resumo
Antecedentes
Envolver crianças e adolescentes (jovens) que vivem com HIV
(JVS) na pesquisa é fundamental para o desenvolvimento de
serviços e intervenções adequadas de cuidado em HIV. No
entanto, essa população vulnerável pode não avaliar de forma
adequada os riscos em relação aos benefícios ao participar de
estudos, o que levanta uma preocupação ética. Pouco se sabe,
entretanto, sobre como os JVS percebem esses riscos e
benefícios. Para subsidiar políticas e procedimentos relacionados
à pesquisa, buscamos compreender as perspectivas de jovens
quenianos vivendo com HIV, de seus cuidadores e de
especialistas no tema sobre os riscos e benefícios da participação
em pesquisas, em um contexto de alta carga de infecção por HIV
entre jovens.
Resultados
Foram entrevistados 40 jovens vivendo com HIV (50%
mulheres; mediana de idade de 17,5 anos), 20 cuidadores (70%
mulheres) e 39 especialistas [profissionais de saúde (N = 10),
líderes comunitários (N = 10), membros de conselhos consultivos
comunitários (N = 4), especialistas em Comitês de Ética em
Pesquisa (N = 5), pesquisadores clínicos (N = 6), pesquisadores
em ciências sociais (N = 4) e um especialista em laboratório (N =
1)]. Todos os grupos identificaram como riscos da participação
em pesquisas: a divulgação acidental do status sorológico para
HIV, o estigma e a discriminação, os riscos associados à coleta
Métodos
Foi realizada uma investigação qualitativa sobre a identificação,
o recrutamento e a proteção de JVS (de 10 a 24 anos) em
30
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
de sangue, os efeitos sobre a saúde mental e a coerção
relacionada à compensação oferecida pelo estudo.
compensação como um risco, e os JVS mencionaram com menor
frequência os benefícios clínicos.
Os benefícios foram agrupados em cinco categorias: clínicos,
informativos, pessoais, futuros e comunitários ou familiares.
Entre os benefícios relatados estavam o acesso a cuidados de
saúde, o aprendizado sobre o HIV, o fortalecimento da esperança
e do sentimento de comunidade, a melhoria do cuidado em HIV e
a redução do estigma. Todos os grupos de participantes
expressaram opiniões amplamente semelhantes; no entanto, os
cuidadores foram o único grupo a identificar o uso indevido da
Conclusão
Esses achados sugerem que os participantes costumam
mencionar riscos e benefícios indiretos da participação em
pesquisas; contudo, esses aspectos são frequentemente excluídos
das diretrizes institucionais para documentação do
consentimento. Os pesquisadores deveriam considerar a inclusão
desses riscos e benefícios indiretos — como o risco de estigma
ou o benefício de adquirir conhecimento e senso de comunidade
— na documentação dos estudos.
Revisão do que dizem as diretrizes éticas de pesquisa sobre o pagamento a voluntários saudáveis
(Review of research ethics guidelines on payment of healthy volunteers)
N Hasler, T Henning, M Suleman.
Journal of Medical Ethics 2025. doi: 10.1136/jme-2024-110509
https://jme.bmj.com/content/early/2025/06/16/jme-2024-110509-0
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: pagamento em pesquisa a voluntários saudáveis, debate ético
sobre pagamentos em pesquisa, políticas de pagamento a
participantes de ensaios clínicos
Resultados: Foram identificadas 41 diretrizes que tratam do
manejo de participantes de pesquisa. Destas, apenas seis
mencionam explicitamente os voluntários saudáveis, e nenhuma
delas tem caráter legalmente vinculante. Todos os documentos
analisados carecem de detalhes e nenhum define termos-chave
como “indução indevida”.
Resumo
Antecedentes: O pagamento de voluntários saudáveis em
pesquisas médicas é uma prática comum, mas é objeto de intenso
debate ético. Embora existam regulações destinadas a proteger os
voluntários, essas normas variam entre os países. Poucos dados
estão disponíveis sobre as diferenças entre países no que se refere
às orientações sobre o pagamento de voluntários saudáveis em
pesquisas médicas.
Conclusões: Os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) têm um
papel fundamental na determinação do que constitui um
pagamento aceitável, mas há pouca orientação disponível para
apoiá-los. Isso lhes confere liberdade para tomar decisões
específicas ao contexto, mas também gera variações na proteção
dos participantes de pesquisa. Com base nesses achados, os
autores fazem as seguintes recomendações:
(1) Mais países precisam elaborar diretrizes que abordem o
pagamento de voluntários saudáveis em pesquisas médicas.
(2) Essas diretrizes devem incluir mais detalhes do que as
atualmente disponíveis.
(3) Os CEPs também necessitam de orientações para auxiliá-los
nas decisões específicas de contexto relacionadas ao pagamento
de participantes de pesquisa.
Métodos: Este estudo tem como objetivo analisar as diretrizes
referentes ao pagamento de voluntários saudáveis em pesquisas
médicas em diferentes países, identificar características comuns e
diferenças, e avaliar se essas distinções são eticamente
relevantes. Para isso, foram analisadas políticas e documentos de
orientação sobre pagamento de participantes de pesquisas
médicas em 11 países que apresentavam o maior número de
ensaios clínicos registrados até 12 de dezembro de 2022.
Genética revolucionaria, riesgos emergentes: avances y dilemas en la era de las terapias génicas
Salud y fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: eventos adversos graves e inesperados que incluyen muertes
relacionadas con terapias génicas, transparencia en el monitoreo
post comercialización de terapias génicas, transparencia en la
comunicación de eventos adversos en ensayos de terapias génicas
ámbito neurológico, también se ha documentado la aparición de
eventos adversos graves e inesperados que incluyen muertes, lo
que ha obligado a interrumpir o detener ensayos en distintas
etapas de desarrollo.
La investigación a partir del conocimiento de las bases genéticas
de múltiples enfermedades está en expansión. La FDA ha
aprobado 37 terapias génicas o celulares, y hay más de 2.000
ensayos clínicos con terapias génicas en curso a nivel
internacional. Estos estudios abarcan terapias de reemplazo
génico, oligonucleótidos antisentido (ASO por su sigla en inglés)
y tecnologías de edición genética como CRISPR.
En este contexto, el artículo de Bonkowsky, Rajan y Eichler [1],
invita a reflexionar críticamente sobre la necesidad de establecer
una cultura de transparencia en la comunicación de eventos
adversos en los ensayos de terapias génicas. A diferencia de los
tratamientos farmacológicos tradicionales, cuyos perfiles de
riesgo son más conocidos y predecibles, las terapias génicas
abren un terreno clínico y biológico inexplorado, donde tanto los
efectos terapéuticos como las reacciones adversas pueden ser
novedosos, impredecibles y, en algunos casos, severos.
Si bien estas terapias han demostrado tener un impacto
transformador en diversas enfermedades, particularmente en el
31
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
experiencias previas y acelerar el desarrollo seguro y responsable
de terapias génicas.
Los autores advierten que, debido al carácter experimental y a
menudo individualizado de estos tratamientos, así como al bajo
número de pacientes incluidos en muchos estudios, los riesgos
potenciales pueden no manifestarse hasta que un número mayor
de personas haya recibido tratamiento.
Este imperativo ético cobra especial relevancia en el ámbito de
las enfermedades neurológicas, donde la urgencia terapéutica y la
complejidad biológica exigen un enfoque aún más riguroso en la
evaluación de riesgos.
En consecuencia, la falta de mecanismos eficaces y sistemáticos
para compartir públicamente esta información representa un
riesgo no solo para los participantes en ensayos futuros, sino
también para la integridad del avance científico en el campo de la
terapia genética.
La publicación en JAMA Neurology [1] subraya que solo a través
de una colaboración abierta y comprometida con la transparencia
será posible consolidar el potencial de la medicina genética como
herramienta de transformación clínica, manteniendo al mismo
tiempo los más altos estándares de ética, seguridad y
responsabilidad científica.
El artículo hace un llamado a los investigadores, instituciones
académicas, reguladores y empresas biotecnológicas a establecer
normas éticas claras que prioricen la seguridad del paciente y el
bien común. Se propone que la notificación oportuna y
transparente de efectos adversos graves se convierta en una
práctica estándar obligatoria, más allá de los intereses
comerciales o reputacionales.
Fonte Original:
1. Bonkowsky, J et al. An Imperative for Public Sharing of Adverse
Events of Gene Therapy Trials. JAMA Neurol 2025;82;(5):429-430.
Published Online: January 13,
2025. doi:10.1001/jamaneurol.2024.4671
https://jamanetwork.com/journals/jamaneurology/articleabstract/2828604
Este enfoque de transparencia es esencial para fortalecer la
confianza pública, permitir el aprendizaje colectivo a partir de
Mortes e eventos adversos graves em alguns participantes de ensaios clínicos
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: Rocket Pharmaceuticals, mortes em ensaios clínicos, síndrome
de extravasamento capilar, terapia gênica RP-A501, doença de
Danon, transgene Lamp2b, microangiopatia trombótica (MAT),
ensaio clínico RP-A601, tratamento da miocardiopatia
arritmogênica associada à Plakofilina-2, vetor AAV (AAVrh74),
Rapamune (sirolimo), Pfizer e GLP-1, Pfizer e danuglipron, Pfizer e
antagonistas de GIP
alta da terapia gênica apresentou um episódio de microangiopatia
trombótica (MAT) — uma complicação das terapias gênicas
virais que ocorre quando coágulos sanguíneos se formam em
pequenos vasos. A biotecnológica então restringiu os critérios de
inclusão do estudo para reduzir o risco dessa complicação [2].
A Rocket identificou a adição de um inibidor de C3 ao regime de
pré-tratamento como uma possível causa do surgimento da
síndrome de extravasamento capilar, tentando, assim, abordar a
MAT [2].
Rocket Pharmaceuticals [1,2]. A empresa Rocket
Pharmaceuticals estava testando sua terapia gênica RP-A501,
utilizando um vetor adenoassociado tipo 9 (AAV9), em pacientes
com doença de Danon — uma condição resultante do
enfraquecimento do músculo cardíaco. O composto RP-A501 foi
desenvolvido para restaurar completamente a função cardíaca por
meio da administração do transgene Lamp2b nas células
cardíacas [1].
A empresa acrescentou que não vê relação entre esse evento e
seu outro ensaio clínico com o RP-A601 para o tratamento da
miocardiopatia arritmogênica associada à Plakofilina-2, “já que
utiliza um vetor AAV diferente (AAVrh74) e não inclui o
inibidor de C3 em seu protocolo de imunossupressão” [1].
Esse ensaio de fase 2 estava sendo realizado com 12 pacientes. A
empresa suspendeu o estudo após um paciente desenvolver
complicações relacionadas à síndrome de extravasamento capilar
cerca de uma semana após a infusão, notificando a FDA, que
procedeu à suspensão temporária do ensaio [1]1.
Na síndrome de extravasamento capilar, o líquido vaza dos vasos
sanguíneos menores do corpo, o que pode provocar uma queda
rápida da pressão arterial. O paciente faleceu após uma infecção
sistêmica aguda, segundo a Rocket [2].
Um comentário sobre essa notícia, publicado na Statnews [3],
recorda que, nos últimos seis anos, mais de meia dúzia de
pacientes faleceram após receber terapias gênicas —
frequentemente, embora nem sempre, devido a uma resposta
imunológica perigosa aos bilhões ou quatrilhões de vírus
utilizados para transportar novos genes às células. Essas mortes
levaram os pesquisadores a reavaliar alguns tratamentos, buscar
vetores virais novos e mais específicos, e encontrar maneiras de
mitigar as respostas imunológicas com outros medicamentos.
A empresa havia informado anteriormente que um dos dois
primeiros pacientes com doença de Danon que receberam a dose
Pfizer e as GLP-1. A Pfizer anunciou que interromperia o
desenvolvimento do danuglipron, seu medicamento experimental
1
A finales de agosto de 2025, la FDA levantó la suspensión. Sin
embargo, se han introducido cambios al protocolo: se ha interrumpido el
uso del inhibidor del complemento C3 y, el régimen inmunomodulador
que se utilizará en el ensayo está diseñado para reflejar lo administrado a
la cohorte pediátrica del estudio de fase I. Esto incluye el uso de
Rapamune (sirolimus), rituximab y esteroides.
32
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
da classe GLP-1, de administração oral duas vezes ao dia,
destinado ao tratamento da obesidade, concentrando seus
esforços em outro fármaco com um mecanismo de ação distinto
(um antagonista de GIP) [4].
Parece que a Pfizer pode continuar estudando a eficácia do
danuglipron em combinação com o antagonista de GIP que está
atualmente desenvolvendo.
Referências
1. La FDA suspende un ensayo de Rocket Pharma con terapia génica por
fallecimiento de un participante. Diario Médico, 29 de mayo de 2025
https://www.diariomedico.com/medicina/empresas/fda-suspendeensayo-rocket-pharma-terapia-genica-fallecimiento-participante.html
2. Kyle LaHucik, Lei Lei Wu. Updated: Patient dies in Rocket gene
therapy trial, which is put on clinical hold by FDA. Endpoints, 27 de
mayo de 2025 https://endpoints.news/patient-dies-in-rocket-genetherapy-trial-on-clinical-hold-by-fda/
3. Mast J. Participant in Rocket Pharmaceuticals gene therapy study
dies. The company did not disclose the age of the person, who had
enrolled in the Danon disease trial. Statnews, May 27, 2025
https://www.statnews.com/2025/05/27/rocket-pharmaceuticals-danondisease-gene-therapy-patient-death/
4. Herper M. Pfizer to discontinue its GLP-1 pill for obesity due to liver
toxicity. CEO previously said the company is ‘determined’ to be in
obesity. Statnews, April 14, 2025
https://www.statnews.com/2025/04/14/pfizer-discontinuedanuglipron-glp-1-obesity-liver-toxicity/
A Pfizer informou que um voluntário assintomático que
participava dos ensaios clínicos com danuglipron apresentou uma
possível lesão hepática induzida por fármacos, que se resolveu
após a suspensão do medicamento. Após revisar todos os dados
clínicos e consultar as autoridades regulatórias, a empresa
decidiu interromper a pesquisa [4].
O ensaio clínico da Pfizer com outra formulação oral de GLP-1
de administração única diária havia sido suspenso em junho de
2023, também devido a elevações de certas enzimas hepáticas.
Em julho do mesmo ano, a empresa anunciou que realizaria mais
testes com o danuglipron, mas não chegou a iniciar um amplo
estudo de fase 3, necessário para solicitar a aprovação
regulatória.
A companhia acrescentou que a frequência de elevação das
enzimas hepáticas observada no banco de dados de segurança do
danuglipron, com 1.400 participantes, era semelhante à de outros
medicamentos da mesma classe.
Gestão dos Ensaios Clínicos, Metodologia, Custos e Conflitos de Interesse
Princípios da Common Sense Oncology para o desenho, a análise e a divulgação dos resultados de ensaios clínicos
randomizados de fase 3.
(Common Sense Oncology principles for the design, analysis, and reporting of phase 3 randomised clinical trials)
B Gyawali et al.
The Lancet Oncology, 2025;26 (2): e80 - e89
https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(24)00451-0/abstract (livre acesso em inglês, tras registro)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: Common Sense Oncology, ensaios oncológicos de fase 3,
benefícios de ensaios clínicos para pessoas com câncer
6.
Resumo
A iniciativa Common Sense Oncology (CSO) prioriza
tratamentos que ofereçam benefícios clínicos reais e
significativos para pessoas com câncer. Neste artigo, são
descritos os princípios da CSO, cujo objetivo é aprimorar o
desenho, a análise e a apresentação dos relatórios de ensaios
clínicos randomizados, controlados e de fase 3 que avaliam
tratamentos oncológicos. Esses princípios incluem:
1.
2.
3.
4.
5.
7.
8.
9.
O tratamento do grupo controle deve corresponder ao
melhor padrão de cuidado disponível no momento da
realização do estudo.
O desfecho primário preferencial é a sobrevida global ou um
substituto validado.
Deve-se fornecer uma medida absoluta do benefício, como
a diferença na mediana da sobrevida global entre os grupos
ou a proporção de pacientes vivos em um momento préespecificado.
A qualidade de vida relacionada à saúde deve ser, no
mínimo, um desfecho secundário.
A toxicidade deve ser descrita de forma objetiva, evitando
linguagem subjetiva que minimize sua gravidade.
Os ensaios devem ser planejados para demonstrar ou
descartar diferenças clinicamente significativas nos
resultados, e não apenas diferenças estatisticamente
significativas.
A censura deve ser detalhada e análises de sensibilidade
devem ser conduzidas para determinar seus possíveis efeitos.
Pacientes do grupo controle que apresentarem progressão da
doença devem ter acesso a tratamentos experimentais que
comprovadamente melhorem a sobrevida global em estágios
posteriores, com financiamento garantido pelo patrocinador.
Os relatórios dos ensaios clínicos devem incluir um resumo
em linguagem acessível ao público leigo.
Os autores incluem listas de verificação para orientar a adesão a
esses princípios. Ao promover essa adesão, a CSO busca garantir
que os ensaios clínicos produzam resultados cientificamente
robustos e clinicamente relevantes para os pacientes.
Lista de verificação para o desenho de ECR que avaliam
novas terapias sistêmicas contra o câncer
• O grupo controle deve receber o melhor tratamento padrão
disponível no momento do início do ensaio.
• Os critérios de elegibilidade não devem ser excessivamente
restritivos, de modo a facilitar a aplicabilidade dos resultados à
prática clínica real.
33
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
• O desfecho primário preferencial para a maioria dos ECR é a
sobrevida global; se for utilizado um desfecho substituto, deve
haver evidência de que ele pode representar adequadamente a
sobrevida global ou a qualidade de vida relacionada à saúde
(HRQOL ou CVRS).
• A toxicidade deve ser avaliada de forma objetiva, incluindo
interrupções ou suspensões de tratamento, toxicidades crônicas
de baixo grau e toxicidades temporárias; recomenda-se que os
pacientes relatem diretamente os eventos adversos.
• Devem ser adotadas medidas para minimizar perdas e
desistências durante o acompanhamento. No momento do
recrutamento, deve-se solicitar permissão aos participantes para
obter informações sobre seu estado de saúde, mesmo que não
sigam integralmente o protocolo.
• O tamanho da amostra e o desenho estatístico dos ECR devem
ser baseados na capacidade de demonstrar ou descartar
diferenças que atendam a limiares de benefício significativo,
como os definidos pela Escala de Magnitude do Benefício
Clínico da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (European
Society for Medical Oncology’s Magnitude of Clinical Benefit
Scale). Ensaios que não alcancem esses critérios devem ser
relatados como ensaios sem benefício clínico significativo.
• O protocolo deve descrever as análises de sensibilidade
planejadas para avaliar o possível impacto da censura nos
resultados do ensaio.
• Qualquer análise de subgrupos baseada em biomarcadores deve
ser definida previamente no protocolo.
• ECR que avaliam tratamentos oncológicos devem incluir uma
medida validada de qualidade de vida relacionada à saúde, pelo
menos como desfecho secundário.
• Ensaios que avaliem tratamentos precoces que já tenham
demonstrado melhora na sobrevida global em pacientes com
doença avançada devem oferecer esse tratamento aos
participantes do grupo controle quando houver progressão da
doença (desde que clinicamente apropriado), com financiamento
assegurado pelo patrocinador.
• Os participantes devem ser acompanhados por tempo suficiente
para avaliar a sobrevida global, independentemente do desfecho
primário. Durante o ensaio, deve-se solicitar permissão aos
pacientes para continuar coletando informações sobre tratamento
e sobrevida após o encerramento formal do estudo.
Fonte: Traduzido pela equipe editorial de Salud y Fármacos a partir da Figura: Questions relating to the design and reporting of randomized
controlled trials, adaptada pela ISDB de Gyawali e colegas.
tanto para o desfecho primário quanto para a sobrevida global —
com intervalos de confiança (IC) e uma medida do benefício
absoluto, mesmo que os dados de sobrevida global ainda sejam
imaturos.
Lista de verificação para a apresentação de relatórios de
ensaios clínicos randomizados (ECR) que avaliam terapias
sistêmicas.
• O resumo deve conter:
– Uma definição explícita do desfecho primário.
– Um resumo objetivo da toxicidade de grau 3 a 5, do tempo
vivido com toxicidade crônica e das interrupções de tratamento,
sem o uso de termos subjetivos que minimizem a toxicidade.
– A razão de risco (hazard ratio) para o tempo até o evento —
34
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
quanto para a sobrevida global (caso não seja o desfecho
primário), com o número de pacientes em risco e o número de
censurados apresentados abaixo das curvas.
– Uma declaração sobre o impacto na qualidade de vida
relacionada à saúde (CVRS).
• Deve ser incluído um resumo dos principais resultados em
linguagem acessível para os pacientes.
– Uma medida absoluta do benefício.
– Motivos de abandono e censura, com análise de sensibilidade
para avaliar os possíveis efeitos sobre o desfecho principal (essa
análise pode ser incluída em um apêndice on-line).
• A seção de métodos deve conter:
– Uma declaração sobre como os pacientes ou o público
participaram do desenho e da aprovação do estudo.
– Número de pacientes do grupo controle que passaram a receber
o tratamento experimental após a progressão da doença e os
tratamentos recebidos após a progressão para todos os pacientes.
– A justificativa do tratamento do grupo controle, que deve
corresponder ao padrão de cuidado vigente.
– A justificativa do desfecho primário e, se não for a sobrevida
global, evidência de que ele pode ser utilizado como substituto
da sobrevida global ou da CVRS.
– Avaliação objetiva da toxicidade, sendo recomendada a
inclusão de uma avaliação feita pelos próprios pacientes.
– Declaração sobre se o ensaio atende ao critério pré-planejado
de benefício da Escala de Magnitude do Benefício Clínicoda
Sociedade Europeia de Oncologia Médica (European Society for
Medical Oncology’s Magnitude of Clinical Benefit Scale), com a
observação de que, caso contrário, os resultados devem ser
considerados negativos, independentemente do valor de p.
– A base estatística para o cálculo do tamanho da amostra e para
a determinação do nível de benefício que o ensaio foi planejado
para detectar ou descartar, considerando o poder estatístico
previsto.
– Estratégias para reduzir perdas e censuras de participantes.
– Inclusão da toxicidade temporária, especialmente quando a
mediana esperada de sobrevida global for inferior a 12 meses.
– Planos de cruzamento e informações sobre a obrigatoriedade de
permitir que os pacientes do grupo controle recebam o
tratamento experimental, incluindo a fonte de financiamento
dessa etapa.
• A seção de discussão deve conter:
– Um resumo dos principais resultados.
– Critérios para análise interina e para interrupção precoce do
ensaio, indicando que estudos paliativos só devem ser
interrompidos antecipadamente se houver melhora definitiva na
sobrevida global.
– Para uma avaliação integral de riscos e benefícios, todos os
tipos de toxicidade devem ser discutidos (por exemplo, física,
financeira e relacionada ao tempo).
• Desencoraja-se a redação do manuscrito por redatores médicos
empregados ou contratados pelo patrocinador.
• A seção de resultados deve conter:
– Curvas de tempo até o evento, tanto para o desfecho primário
Análise de custos do ensaio clínico TB-PRACTECAL que avaliou novos regimes de tratamento da tuberculose
(Cost analysis of the TB-PRACTECAL clinical trial on novel tuberculosis treatment regimens)
Gotham D, Martin M, Barber MJ, Kazounis E, Batts C, Scourse R, et al.
PLOS Glob Public Health 2025;5(4): e0003759. https://doi.org/10.1371/journal.pgph.0003759 (livre acesso em inglês)
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: ensaio clínico TB-PRACTECAL, tratamento da tuberculose,
tratamento anti-TB, tratamento antituberculoso
Os custos do ensaio TB-PRACTECAL foram analisados a partir
dos registros contábeis da MSF. Os valores foram desagregados
por categoria, ano e centro do ensaio. O custo total do TBPRACTECAL foi de €33,9 milhões, com um custo médio por
paciente de €61.460.
Resumo
Os ensaios clínicos são geralmente a etapa mais cara do
desenvolvimento farmacêutico. No entanto, é raro que os custos
detalhados de cada ensaio clínico sejam divulgados
publicamente. Médicos Sem Fronteiras (MSF) patrocinou um
ensaio clínico randomizado e controlado de fase 2b-3 (TBPRACTECAL), que identificou um novo regime de tratamento
para a tuberculose farmacorresistente.
Do total de custos, 26% corresponderam a atividades centrais
(por exemplo, planejamento e gestão do ensaio), 72% a
atividades realizadas nos locais de implementação e 2% não
puderam ser categorizados.
Entre os custos dos centros de pesquisa, os pagamentos de
pessoal foram os mais elevados (43%), seguidos pelos serviços
diagnósticos externos (11%), medicamentos (9%) e outros
insumos médicos (7%). As diferenças de custos entre os locais
do estudo refletiram as variações na infraestrutura existente em
O objetivo deste estudo foi analisar os custos de um ensaio
clínico pivotal realizado em sistemas de saúde com recursos
relativamente limitados e demonstrar a viabilidade de relatar
publicamente os custos dos ensaios clínicos.
35
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
O custo de €34 milhões do TB-PRACTECAL incluiu
investimentos em infraestrutura para a realização de ensaios
clínicos, a complexidade de administrar seis centros em três
sistemas de saúde distintos e despesas médicas incomuns em
ensaios clínicos padrão.
cada centro e nas adaptações necessárias para a execução do
ensaio.
Uma revisão de estudos anteriores mostrou uma ampla faixa de
estimativas de custos para ensaios clínicos — variando entre US$
7 milhões e US$ 221 milhões por ensaio para estudos
farmacêuticos de fase 2 e 3.
Uma maior transparência sobre os custos de desenvolvimento de
medicamentos pode subsidiar as negociações sobre preços e é um
elemento fundamental para o desenho e a implementação de
sistemas de pesquisa e desenvolvimento biomédico mais
equitativos.
Quase todas as estimativas anteriores derivam de relatórios da
indústria que não são padronizados nem auditáveis. Até onde se
sabe, este é o primeiro estudo publicado que apresenta uma
análise abrangente e detalhada dos gastos diretos de um ensaio
clínico específico, incluindo o detalhamento completo de custos.
O problema com os ensaios clínicos pragmáticos (The problema with pragmatic trials)
J. Mandrola
Sensible Medicine, 26 de mayo de 2025
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: ensaios pragmáticos, ensaios restritivos, desempenho de
tratamentos, ensaio clínico A2B, dexmedetomidina, clonidina e
propofol, realidade dos resultados
O propofol, contudo, tem desvantagens. Por isso, uma equipe
liderada por pesquisadores de Edimburgo, Escócia, planejou uma
comparação tripla entre dexmedetomidina, clonidina e propofol.
A dexmedetomidina e a clonidina são sedativos baseados em
agonistas dos receptores adrenérgicos α2 (você talvez conheça a
dexmedetomidina pelo nome comercial Precedex).
O estudo da semana explora os desafios de extrair conhecimento
quando os ensaios procuram imitar o mundo ruidoso da prática
clínica.
Foram incluídos pouco mais de 1.400 pacientes que deveriam
permanecer intubados por mais de um dia.
Hoje falamos sobre o ambiente e os procedimentos de um ensaio
clínico, e sobre como esses fatores influenciam a aplicação dos
resultados aos pacientes.
Os procedimentos do ensaio foram um ponto-chave. O estudo foi
aberto, e os médicos ajustaram as doses de acordo com o nível de
sedação necessário. Permitiu-se o uso adicional de propofol nos
grupos tratados com agonistas α2, conforme julgamento clínico.
Os protocolos de extubação seguiram diretrizes do ensaio, mas,
novamente, os médicos usaram seu próprio critério.
Considere dois extremos: em um ensaio clínico, os pacientes
devem permanecer rigorosamente no tratamento ao qual foram
designados, sem desvios; no outro, permite-se ampla liberdade
clínica e o cruzamento entre tratamentos. Este último é chamado
de ensaio clínico pragmático. No entanto, é importante observar
que o pragmatismo não é dicotômico — todos os ensaios clínicos
apresentam diferentes graus de pragmatismo.
O desfecho primário foi o tempo desde a randomização até a
extubação bem-sucedida. Os desfechos secundários incluíram
mortalidade em 6 meses, qualidade da sedação, taxas de delírio e
eventos cardíacos. A hipótese inicial era que os fármacos não
baseados em propofol reduziriam o tempo até a extubação.
Mas, para efeito de ilustração, consideraremos aqui os extremos:
altamente restritivo versus altamente pragmático.
O ensaio clínico restritivo permite avaliar com clareza o
desempenho dos tratamentos. A desvantagem é que ele não
reflete a realidade da prática médica. Já a vantagem do ensaio
pragmático é que, ao imitar a prática clínica, seus resultados são
mais generalizáveis. A desvantagem, porém, é que a liberdade
clínica e o cruzamento entre tratamentos introduzem confusão,
dificultando a distinção dos efeitos reais de cada intervenção.
Resultados:
Em resumo, não houve diferenças significativas no desfecho
primário (tempo até a extubação) em comparação com o
propofol. O tempo médio até a extubação bem-sucedida foi
ligeiramente menor nos grupos que receberam agonistas α2, mas
sem significância estatística.
• HR para dexmedetomidina versus propofol: 1,09 (IC 95%:
0,96–1,25; p = 0,20).
A revista JAMA publicou o ensaio clínico A2B, que comparou
três fármacos usados na sedação de pacientes intubados em UTI
[1,2]. Não é preciso ser médico intensivista para aprender com
este estudo.
• HR para clonidina versus propofol: 1,05 (IC 95%: 0,95–1,17; p
= 0,34).
Informações básicas: pacientes conectados a respiradores
precisam de algum tipo de sedação. Diversos medicamentos
podem ser utilizados, e há debate sobre qual é o melhor. O mais
usado é o propofol, conhecido por sua aparência leitosa.
Não houve interações significativas entre os subgrupos prédefinidos.
Resultados secundários relevantes:
• A agitação foi 54% mais frequente com dexmedetomidina do
que com propofol (HR: 1,54; IC 95%: 1,2–2,0) e 55% mais
36
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
frequente com clonidina (HR: 1,55; IC 95%: 1,2–2,0).
• A bradicardia também foi mais comum com dexmedetomidina
(RR: 1,62; IC 95%: 1,4–1,9) e clonidina (RR: 1,58; IC 95%: 1,3–
1,9).
• A mortalidade em 6 meses foi semelhante entre os três grupos.
O desenho aberto é realmente desafiador, pois aceita diferenças
no comportamento clínico. No entanto, é praticamente
impossível cegar 1.400 pacientes em uma UTI quando um
medicamento é branco e leitoso e os outros são transparentes.
Assim, o ensaio é conduzido, aceitando-se o ruído.
Conclusão dos autores:
Em pacientes críticos, nem a dexmedetomidina nem a clonidina
foram superiores ao propofol para reduzir o tempo até a
extubação bem-sucedida.
Da mesma forma, os protocolos de sedação que permitem o
cruzamento de fármacos são tolerados porque imitam a prática
real e facilitam o recrutamento. Se fosse dito aos pacientes (e
médicos) que não haveria possibilidade de trocar de tratamento,
talvez ninguém aceitasse participar. Portanto, faz-se o ensaio
pragmático — e aceita-se a confusão.
Comentários:
Se você é médico de UTI — ou apenas um paciente bem
informado —, qual seria a conclusão deste estudo?
Poderia dizer: “Está provado. Continuemos com o propofol de
sempre.” Os agonistas α2 não funcionaram melhor, e, além disso,
a qualidade da sedação foi pior sem propofol.
No final, como observador externo, não estou certo de que
tenhamos uma resposta definitiva. Acredito que o bom e velho
propofol continua funcionando muito bem.
Como escrevem os editorialistas, talvez não obtenhamos uma
resposta clara simplesmente porque ela não existe. Talvez não
haja um único agente sedativo ideal — e talvez devêssemos
aceitar que o melhor protocolo de sedação depende de médicos
experientes que saibam combinar os fármacos conforme cada
situação.
Por outro lado, poderia concluir que, como não houve diferença
significativa, qualquer uma das três opções é aceitável.
A principal tensão — e o motivo pelo qual o estudo merece
destaque — está no seu caráter altamente pragmático.
Primeiro, o estudo foi aberto, o que é importante: médicos podem
tratar os pacientes de maneira diferente quando sabem qual
medicamento estão administrando. Isso pode afetar, por exemplo,
a decisão de extubação (o desfecho principal).
De certo modo, gosto dessa conclusão. Mas não saberíamos disso
sem o ensaio A2B.
Parabéns à equipe de Edimburgo!
Segundo, os pacientes tratados com dexmedetomidina e
clonidina puderam receber propofol adicional para alcançar
sedação adequada — e mais de 75% desses pacientes o
receberam em doses baixas. Clinicamente, isso é aceitável;
metodologicamente, contudo, complica a interpretação, pois os
agonistas α2 só reduzem o tempo de extubação se permitirem
sedação mais leve e menor depressão respiratória.
Percebe o problema?
Referências
1. Qian ET, Rice TW. The Search for the Single Best
Sedative. JAMA. 2025;334(1):26–28. doi:10.1001/jama.2025.7359
2. Walsh TS, Parker RA, Aitken LM, et al; A2B Trial Investigators.
Dexmedetomidine- or clonidine-based sedation compared with
propofol in critically ill patients: the A2B randomized clinical
trial. JAMA. Published online May 19, 2025.
doi:10.1001/jama.2025.7200
Diferenças entre as populações de ensaios clínicos e as populações das bulas aprovadas de novos medicamentos nos Estados
Unidos e na Europa (2012–2023): um estudo transversal (Differences Between Trial Populations and Approved Label Populations
of New Drugs in the United States and Europe (2012 to 2023): A Cross-Sectional Study).
KN Vokinger, M Serra-Burriel, CEG Glaus, L Welti, JS Ross, AS Kesselheim
Ann Intern Med. 2025 Jul 8. doi: 10.7326/ANNALS-24-03242. Epub ahead of print. PMID: 40623311.
https://www.acpjournals.org/doi/abs/10.7326/ANNALS-24-03242
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: aprovação de medicamentos, bula de medicamentos EUA vs.
Europa, ficha técnica de fármacos
Desenho do estudo:
Estudo transversal.
Resumo
Antecedentes:
Os medicamentos são aprovados quando seus benefícios superam
os riscos, com base nos resultados dos ensaios clínicos. No
entanto, ainda não está claro com que frequência as agências
reguladoras extrapolam ou restringem a aprovação em relação à
população estudada nos ensaios.
Contexto:
Foram incluídos todos os novos medicamentos aprovados pelas
três agências entre 2012 e 2023, comparando-se as populações
dos ensaios clínicos com as populações das bulas aprovadas.
Pacientes:
Foram analisados dados agregados e anonimizados dos pacientes
incluídos nos ensaios clínicos e nas informações das bulas
aprovadas.
Objetivo:
Analisar as diferenças nas características dos pacientes incluídos
entre as populações dos ensaios clínicos e as populações
indicadas nas bulas aprovadas nos Estados Unidos, União
Europeia (UE) e Suíça para novos medicamentos.
Medidas:
Foram comparados os critérios de elegibilidade das populações
37
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
dos ensaios clínicos e das bulas aprovadas nos Estados Unidos,
UE e Suíça, considerando cinco categorias: idade, subtipo de
doença, gravidade da doença, condição clínica (fitness) e
tratamento prévio. Modelos de regressão linear foram aplicados,
e determinaram-se as proporções de avaliações mais amplas e
mais restritivas.
95%, 49%–54%]) nos Estados Unidos, 119 (43% [IC 95%, 40%–
46%]) na UE e 111 (40% [IC 95%, 37%–43%]) na Suíça.
Resultados:
Foram incluídos 263 medicamentos (278 indicações) na coorte
do estudo. De modo geral, as populações descritas nas bulas
aprovadas eram mais amplas que as populações dos ensaios
clínicos — e essa diferença foi mais acentuada nos Estados
Unidos do que na UE e na Suíça.
A condição clínica (fitness) foi a variável com maior
divergência: 276 indicações aprovadas (99,3% [IC 95%, 99,2%–
99,4%]) nos Estados Unidos e na UE, e 275 (98,9% [IC 95%,
98,8%–99,0%]) na Suíça. Em seguida, vieram as diferenças na
gravidade da doença, observadas em 143 indicações (51% [IC
Conclusão:
São indicados ensaios clínicos pós-aprovação e vigilância para
medicamentos cuja população-alvo foi ampliada após a
aprovação, a fim de garantir segurança e eficácia para
subpopulações de pacientes que não foram incluídas nos estudos
originais.
Limitação:
Os relatórios sobre os critérios de elegibilidade dos ensaios
clínicos careciam de uniformidade.
Fonte de financiamento principal:
Kaiser Permanente Institute of Health Policy; Swiss National
Science Foundation (SNSF).
Estratégias para analisar os resultados de ensaios clínicos randomizados globais
Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
Tags: aprovação regulatória do ticagrelor, inibição da agregação
plaquetária, integridade dos dados de ensaios clínicos randomizados
Por outro lado, um modelo estatístico que analise cada subgrupo
regional como se fossem entidades separadas — um modelo não
agrupado —, como o subgrupo dos EUA (HR = 1,27; IC 95%:
0,92 a 1,75), é um desperdício, pois exclui a maior parte dos
dados dos pacientes randomizados. Esta foi a dificuldade
enfrentada pela FDA, que inicialmente rejeitou e depois aprovou
o ticagrelor sem que houvesse mudanças na base de dados.
Como já informamos neste boletim, Doshi questionou a
integridade dos dados de dois ensaios clínicos randomizados que
utilizaram desfechos substitutos e serviram para respaldar a
aprovação regulatória do ticagrelor. Além disso, os participantes
do estudo apresentavam doença coronariana estável, enquanto o
ticagrelor é utilizado em pacientes com síndrome coronariana
aguda, e o valor do marcador substituto utilizado nos ensaios —
a inibição da agregação plaquetária — continua incerto.
Para solucionar esse problema, Brophy propõe o uso de um
terceiro modelo estatístico: a regressão hierárquica. No
metanálise hierárquica bayesiana com agrupamento parcial, os
efeitos estimados dos estudos individuais se aproximam da média
global com maior precisão ou, de forma mais geral, de uma
predição baseada nas características de cada centro e país. No
entanto, a estimativa agrupada da razão de risco média — ou da
razão de risco para um novo estudo hipotético que possa ser
realizado — terá uma margem de incerteza mais ampla,
refletindo as variações adicionais agora reconhecidas entre
regiões ou países.
Brophy [1] utiliza o exemplo dos ensaios com ticagrelor para
propor o uso de modelos estatísticos hierárquicos na análise dos
resultados de ensaios clínicos multicêntricos.
Os modelos estatísticos desempenham um papel muito
importante na tomada de decisões científicas e, embora
geralmente sejam apresentados como ferramentas neutras,
ocultam suposições fortes — muitas vezes não declaradas, não
atendidas e irreais — que podem influenciar de forma decisiva as
conclusões.
A metanálise hierárquica do PLATO resulta em uma estimativa
agrupada (HR = 0,90; 0,72 a 1,10) com incerteza suficiente para
concluir que é necessário confirmar o sinal do ticagrelor em
estudos posteriores, especialmente em pacientes dos EUA. Um
segundo estudo não foi realizado nos EUA. Além disso, ensaios
randomizados posteriores com ticagrelor não mostraram qualquer
benefício. As evidências mais recentes sustentam a interpretação
mais cautelosa do modelo hierárquico do PLATO e, em menor
medida, a superioridade do ticagrelor quando se utiliza o modelo
agrupado.
Segundo Brophy [1], o ensaio PLATO é um bom exemplo. A
razão de risco estimada de 0,84 (p < 0,001), que reguladores e
médicos em âmbito global interpretaram como prova conclusiva
da superioridade do ticagrelor, depende em grande medida das
suposições ocultas no modelo estatístico escolhido.
O PLATO foi analisado usando um modelo agrupado que
assumiu riscos basais e efeitos do tratamento constantes entre
diferentes centros de pesquisa, países e regiões — uma suposição
improvável, dado que o cuidado pós-infarto do miocárdio é, sem
dúvida, diferente nos 43 países participantes. Ignorar quaisquer
fatores sistemáticos no nível do centro de pesquisa e do país
resultará em intervalos de confiança falsamente precisos e
acarreta maior risco de fazer afirmações falsas de benefício.
O modelo estatístico utilizado influencia como os dados afetam a
aprovação regulatória, a aprovação de diretrizes de diagnóstico e
tratamento e a tomada de decisões clínicas. Acreditamos que
regressões hierárquicas oferecem estimativas mais robustas e
fornecem uma explicação mais completa e transparente da
incerteza. Portanto, recomendamos que se tornem o padrão para
ensaios randomizados multicêntricos, especialmente quando os
38
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2025; 3(4)
dados agregados foram coletados em sistemas de saúde
heterogêneos.
Em uma era em que os ensaios globais moldam a prática geral, é
essencial garantir a confiabilidade tanto da integridade dos dados
quanto dos modelos estatísticos que os acompanham. É preciso
analisar criticamente os modelos estatísticos, com a mesma
minúcia dedicada aos dados que eles pretendem resumir.
Embora os pesquisadores possam optar por rejeitar um modelo
hierárquico específico para um ensaio multinacional, deve haver
consenso de que, quando as conclusões diferem drasticamente
conforme a escolha do modelo estatístico, os dados dificilmente
podem ser considerados robustos e é preciso exigir a replicação
dos resultados.
Referência
1. Brophy J M, Gelman A. Rethinking approaches to analysis of global
randomised controlled trials BMJ 2025; 389 :r1273
doi:10.1136/bmj.r1273
https://www.bmj.com/content/389/bmj.r1273.long
39